elogio

Me disseram que eu era apaixonante. Ou melhor, uma pessoa disse. Uma única vez. Certamente, o elogio mais enebriante que já recebi. E como não seria? Poder cativar as pessoas por um olhar, por gestos simples, pela conversa interessante, e por tantos atributos que mal sei enumerar.
Mas são obviedades. Pois se eu fosse realmente apaixonante, saberia as características necessárias para ser uma pessoa de tais qualidades. Mesmo que eu possa elencá-las em outra pessoa, não sou capaz de enxergá-las em mim, pelo óbvio.
Não sou o tipo sedutora, misteriosa. Sou sistemática, um livro aberto mais que transparente, que pouco tem a oferecer. Não tenho os encantos de uma menina meiga e tranquila, sou nervosa, autoritária e territorialista… Não sou uma pessoa de andar fluido e modelar, sou daquelas que se perdem nas distrações de sensibilidades inúteis.
Não possuo uma beleza estonteante, deslumbrante. Sou, antes, uma mulher que tenta fazer-se vista em seu lugar, com pouco sucesso. Nunca fiz uma pessoa tremer em suas bases por me ver, tampouco perder a fala ou me amar em silêncio. Conheci o que era o amor uma única vez, assim como aquela frase com três palavras e um encanto que não perdurou.

Em dias de chuva.

Mas é bem provável mesmo que somente eu tenha essas dores agudas no peito em dias de chuva. Esse hábito de observar dias cinzentos e sentir a tristeza neles, de sentir tristeza por eles. Só mesmo eu tenho tempo pra isso. Mesmo com toda essa chuva lá fora, o mundo continua se movendo, as pessoas continuam passando, os carros permanecem em seu curso inevitável aos afazeres de uma segunda-feira mais que comum.
Ninguém observou a falta das nuvens no céu, a falta de expressividade nesse céu que ontem mesmo irradiava a felicidade de um domingo ensolarado e  extasiante. Hoje, as cobertas estão jogadas pelo chão do quarto, mesmo que a vontade seja a de me jogar pra debaixo delas e não sair de lá enquanto todos os meus problemas não estejam todos resolvidos.

Não adiantou fazer mingau quentinho, encher a mesa de livros a minha volta, pra me dar aquela confortante sensação de que eu estou estudando e meus trabalhos estão se escrevendo sem a minha ajuda. Não adiantou também trancafiar-me em casa, fechar portas e janelas, aumentar o som do meu rádio e ouvir músicas antigas que costumavam perpetuar a sensação de torpor. Não foi o suficiente manter-me em silêncio durante um dia inteiro e deixar de lado todas as minhas obrigações…

É como observar uma fotografia sem vida, esperando assistir uma grande produção hollywoodiana em minhas mãos. Quero sentir minhas pernas fraquejando, perdendo meu chão ao bater meus olhos em você, sentir o mundo rodar em uma fração de segundos e sentir-me tonta pelas próximas semanas. Quero ser egoísta, e tomar a liberdade que lhe dei de amar quem você quisesse. Quero esquecer meus problemas, e deixar de observar esse céu meu, esse céu eu, que mostra umas gotas quaisquer que caem, um choro incontido, que dos meus olhos não saem.

Tudo era cinza

Era silencioso o quarto. Somente esse som de nada lhe restara. Seus pensamentos esperneavam, seu coração acelerava em uma raiva descontínua, e ofegava em sua respiração. Não distinguia formas ou cores, tudo era cinza, sem gosto e sem cheiro algum.

Sua mente divagava em momentos simples, conversas banais e agradáveis que lhe compraziam o ânimo, e que agora eram puro silêncio. Ah, que sensação mais devastadora! Essa, de quando se sente usurpado de um bem que nunca lhe pertenceu. Já se fora a voz, o abraço, o amor. Nada disso existiu.

Deixou embeber-se pelos sonhos, num fluido dançar surdo, onde as palavras pareciam preencher um vazio há muito existente. Agora, o espaço desocupado parecia bem maior do que antes. Era um aperto no peito, como se pudesse sentir, literalmente, como é ter um coração partido.

Seus olhos permanecem secos, embora sua alma pareça desvelar o pranto em uma voracidade incontrolável. Suas mãos estão trêmulas, mal escreve e tampouco consegue dizer o que sente. Escolheu calar-se por amor. Guardou-se em uma prisão para que outro pudesse ser livre em seu lugar.