A presença da história em Esaú e Jacó:

Reificação dos gêmeos machadianos a partir do regime político brasileiro

Tendo por hipótese a reificação dos gêmeos machadianos a partir do regime político brasileiro, faz-se necessária a abordagem acerca da presença da História em Esaú e Jacó.  Sabendo-se que essa obra fora publicada no ano de 1904, o distanciamento temporal é mínimo entre os acontecimentos históricos e aqueles apresentados no livro. Inevitável também é deslumbrar-se com o espaço reservado por Machado de Assis para marcar essa transição política. Levando-se em conta que neste dado momento da vida, o autor não lança críticas tão ácidas como em Dom Casmurro ou Memórias Póstumas, por exemplo, Esaú e Jacó torna-se uma espécie de romance panorâmico – onde Machado de Assis mostra a sociedade brasileira como ela é, sem atacá-la de fato. E, de maneira a compreender melhor a análise proposta, apresenta-se aqui um breve retrato histórico brasileiro, segundo algumas das considerações feitas por João Pacheco.

Compreende-se que o Brasil enfrentara uma série de mudanças a partir do ano de 1850, quando da abolição do tráfico negreiro. Além disso, ocorre a mudança de pólo econômico para o sul do país com a cultura do café e os avanços tecnológicos, tais qual a construção de ferrovias por todo o país e a chegada do telégrafo. Contudo, em 1864 vem a guerra do Paraguai e desestruturação da economia, graças aos gastos com equipamentos bélicos, levando a uma repercussão no comportamento social e gerando novas necessidades de mercado.  Naturalmente, estas transformações atingiram o campo político. E, insatisfeitos, alguns desses políticos renunciam ao partido conservador – de ideais monárquicos – para filiarem-se ao partido liberal, e juntos formarem a nova agremiação: o partido progressista, cujas reivindicações incluíam a federação; a temporariedade do senado, já que esse era um cargo vitalício; e a extinção da escravatura. Todas essas idéias minaram de forma a conduzir o surgimento do partido republicano, com seu manifesto lançado no dia 3 de dezembro de 1870. Com isso, temos a campanha abolicionista, que institui a liberdade do nascituro de escravo em 1871, que, no entanto é bastante falha – visto que essas crianças tinham o mesmo fim de escravo que seus precursores. É este o ano que Machado de Assis escolhe para a apresentação dos gêmeos Pedro e Paulo, que também é o ano do nascimento de Flora, a amada desses irmãos.

Já em 1870 começa a entrada de imigrantes no país, e com isso a mão-de-obra assalariada, causando outro desajuste na economia que geraria um novo estilo de vida.  Temos em 1881 as eleições diretas, e quatro anos depois, a lei sexagenária. Com a força dessas transformações, aumenta a cisão entre coroa e nação. E, um ano após o surgimento da Lei Áurea, estoura a república, e passamos – como veremos na obra – do que trata também a tese de mestrado de Luiz Fernando Godois Brito, que chama-se “Da rua do Ouvidor ao 15 de novembro – cotidiano e representações da cena carioca em Esaú e Jacó, de Machado de Assis”. E é inevitável advertir que a República não cessa o rebuliço na política.  Pelo contrário, muitos se manifestaram descontentes com o regime, que não resolvera os problemas da nação e acabara assim por não ser a república com que tinham sonhado; como faz exatamente o gêmeo Paulo: “A oposição de Paulo não era ao princípio, mas à execução. Não é esta a republica dos meus sonhos, dizia ele; e dispunha-se a reformá-la em três tempos, com a fina flor das instituições humanas, não presentes nem passadas, mas futuras.” (ASSIS, p. 197) Alguns esperam, como Pedro, a restauração monárquica. Com isso dito, é possível agora aprofundar-se nas linhas de Esaú e Jacó, de modo a confirmar a hipótese inicial.

Dentro da obra machadiana, o romance aborda, sobretudo, a política brasileira da época – especificamente entre 1871 e 1894 – período que marca a crise e a queda do império e surgimento da república, mostrando a impossibilidade de colocar o Brasil em benefício de seu próprio povo. O enredo do romance centra-se na história dos gêmeos Pedro e Paulo, simetricamente opostos, e ao mesmo tempo tão idênticos. Enquanto este último tem aspirações pela medicina, o primeiro tem pelo direito. Mas são as questões políticas o centro de seu conflito, já que Pedro simpatiza pela monarquia – veja seu nome idêntico aos líderes monárquicos brasileiros – e seu irmão Paulo é mantenedor da república. A crítica machadiana ao sistema político brasileiro começa com a alusão à Bíblia quando Rebeca, ao sentir que os filhos Esaú e Jacó brigam em seu útero recorre a Deus perguntando-lhe o motivo, que em resposta lhe diz a haver duas nações em seu ventre. Aqui, as duas nações seriam o Brasil, que a partir da crise política de 1871 divide-se em fundamentalmente em monarquistas e republicanos. O nascimento dos gêmeos é, por assim dizer, uma alusão pertinente, visto que o próprio nome da mãe – Natividade – já carrega essa idéia, a indicar algo novo que é esperado. O que, entretanto não acontece. Daí a hipótese de que esses gêmeos, além de representarem a personificação dos dois sistemas políticos, também pintarem o quadro da unicidade. Machado de Assis expõe sua indiferença pelos sistemas igualando-os nas figuras de Pedro e Paulo, portanto. Idéia esta que é reforçada ao longo de toda a narrativa. Eis um trecho: “Talvez perdessem estando juntos, porque a semelhança diminuía em cada um deles a feição pessoal. (ASSIS, p.71). Em termos diversos, quando separados poder-se-ia ter a impressão de que não eram assim tão semelhantes, mas quando comparados, via-se sua condição de eterna eqüidade.

Dá-se o início da narrativa, como já dito, no ano de 1871, quando da visita de Natividade e Perpétua à cabocla que lhes contaria a respeito do destino dos gêmeos Pedro e Paulo. O capítulo, que é intitulado “Coisas Futuras” carrega bastante da intencionalidade de Machado ao retratar o cenário da política brasileira através dessas duas figuras tão gêmeas, e são exatamente coisas futuras e um grande destino que a cabocla Bárbara lhes diz estar reservado. Mas também indaga a respeito de algo que preocupa Natividade: “E não foi sem grande espanto que lhes ouviu perguntar se os meninos tinham brigado antes de nascer.” (ASSIS, p. 16). Comprova-se por este trecho a situação de um país dividido, como já mencionado outrora. Todavia, mesmo com tal indagação, a mãe tranqüiliza-se pela sonoridade das coisas futuras, o que reflete bem o impasse vivido pela sociedade brasileira do pós 1871. O tremor político foi de fato significativo e ninguém sabe mais o que acontecerá no futuro. O romance retrata o pessimismo e desorientação permanente, conseqüentes do abalo do sistema escravocrata e do surgimento da nova classe, voltada para o mercado exterior. Nos trechos seguintes, tem-se mais uma vez a idéia do porvir, da esperança. “Tornava a lembrar-se que, de fato, a gestação não fora sossegada; mas só lhe ficava a sorte da glória e da grandeza. A briga lá ia, se a houve, o futuro sim, esse é que era o principal ou tudo.” (ASSIS, p.21) Espera-se o mesmo da política, já que pouco importaria que existissem conflitos passados, contanto que o futuro fosse repleto de coisas magníficas. “Em verdade, qualquer outra viveria a tremer pela sorte aos filhos, uma vez que houvera a rixa anterior e interior. Agora as lutas eram mais freqüentes, as mãos cada vez mais aptas, e tudo fazia recear que eles acabassem estripando-se um ao outro…mas aqui surgia a idéia da grandeza e da prosperidade, – coisas futuras – esta esperança era como um lenço que enxugasse os olhos da bela senhora.”(ASSIS, p.48). Mais adiante na narrativa, há um trecho que é capital para o entendimento desta análise, trata-se de mais uma das metáforas de Machado para sinalizar o fim do império e a chegada da república: “Foi a última palavra da necrologia; paz aos mortos. Dali em diante, vingou a soberania da criança que alvorecia. […] e por fim a esperança que  é a meninice do mundo.”(ASSIS, p.27-28) Metáfora que pode ser entendida como a morte do regime que é registrada, e a ascensão de um outro. Quanto à esperança como retrato da meninice, há aqui a representação da ingenuidade da sociedade brasileira em ainda crer nas mudanças.

É ainda no escolher do nome que podemos perceber a imagem dos irmãos como plena equivalência: “Um dia, estando Perpétua à missa, rezou o credo, advertiu as palavras: “[…] os santos apóstolos S. Pedro e s. Paulo”, e mal pôde acabar a oração. Tinha descoberto os nomes; eram simples e gêmeos.” (ASSIS, p.29) Trazendo para a analogia dos regimes políticos, muda-se o nome, mas não o conteúdo.  Mesmo na infância, Machado de Assis já os coloca como dois seres incompletos que convergem verdadeiramente a um único: “Aos sete anos, eram duas obras primas, ou antes, uma só em dois volumes, como quiseres. (ASSIS, p. 45) Fato que o Conselheiro Aires, já quase finda a narrativa, reitera a respeito de quem chegaria primeiro ao poder: “Como nas missas fúnebres, só se troca o nome do encomendado – Petrus, Paulus…” (ASSIS, p.198). E além de iguais na aparência e na idéia que representam, são iguais em competitividade – que é outro ponto forte salientado por Machado de Assis na personalidade dessas personagens. Competem pela ambição de nascer primeiro, de amamentar mais e melhor, e, essencialmente, de alcançar antes o sucesso. Concorrem pelo amor da mãe e de Flora também.

E esta última personagem é essencial para a concretização de toda essa análise, visto que Flora está em nome da resolução política. Cabe a ela escolher pelo amor de um dos gêmeos; ou seja, metaforicamente, é sua função definir se o país continuará monarquista ou republicano. A dúvida, a queixa, a tentativa de conciliar os opostos, tudo isso alimentou seu espírito ao estar em companhia dos gêmeos, que eram ambos tratados com a mesma consideração. Flora defendia-os em igual intensidade, como que os equiparando. No entanto, definha e morre antes de tomar qualquer decisão e os gêmeos ficam ainda mais distantes um do outro.  Tais oposições políticas vistas no geral são analogias daquelas que mais saltam aos olhos no Brasil, ordem e desordem, progresso e conservadorismo. Dessa forma, qualquer aspecto positivo está condicionado a um negativo e vice-versa e os efeitos dessa relação resultam no nada, ou melhor, morrem como Flora. E, tal objeto de desejo que era, seria natural que, uma vez que representava também a unificação das ambições dos gêmeos, com sua morte deveria vir a redenção. Contudo, há uma espécie de morte da dúvida, uma vez que se estabelece o governo apesar da não-escolha.

Retomando a infância dos gêmeos, há um episódio que retrata já a inclinação política dos meninos, no momento em que alguém lhes pergunta sobre a data de seu aniversário, retratado no trecho seguinte do capítulo XXIII: “Paulo respondeu: – Nasci no aniversário do dia em que Pedro I caiu do trono. E Pedro: – Nasci no aniversário do dia em que sua Majestade subiu ao trono.” Mais adiante, já sonham em ocupar cargos em seu regime político ideal: “Paulo viu-se à testa de uma república, em que o antigo e moderno, o futuro e o passado se mesclassem, uma Roma nova, uma Convenção Nacional, a República Francesa e os Estados Unidos da América.[…] Pedro, à sua parte, construía a meio caminho como um palácio para a representação nacional, outro para o imperador, e via-se a si mesmo ministro e presidente do conselho.” (ASSIS, p. 73) E quando da abolição dos escravos, Paulo já atina discursos políticos, aos quais apenas dá voz, como coloca Machado:  “A abolição é a aurora da liberdade; esperamos o sol. Emancipando o preto, resta emancipar o branco” (ASSIS, p.47) Mas, Natividade – que é aqui figura conservadora a princípio, e logo saudosista –  não se dá conta que “[…]a frase do discurso não era propriamente do filho; não era de ninguém. Alguém a proferiu um dia, em discurso ou conversa, em gazeta ou em viagem de terra ou de mar. Outrem a repetiu, até que muita gente a fez sua. Era nova, era enérgica, era expressiva, ficou sendo patrimônio comum.” (ASSIS, idem.). Essa efervescência pode ser explicada com o trecho que segue, de acordo com o historiador Leôncio Basbaun: “A república era mais um sentimento estético que propriamente prático ou político. Era belo ser republicano, como era belo ser abolicionista” (BASBAUN apud. BRITO, p. 75). O que leva ao cerne da questão, visto que Paulo representa a verdadeira utopia, sempre em busca do inalcançável e insatisfeito com o presente; em suma, a espera de um futuro que jamais chegará.

Isso é dito simplesmente porque, mesmo com a república estabelecida, e após sua árdua luta pelos ideais, e aqui, retomamos a citação inicial, Paulo sente-se desgostoso do regime e pensa que deve haver novas transformações. E num ambiente que até mesmo as personagens reduziam os gêmeos aos regimes políticos, era natural que tivessem que apaziguar os ânimos mantendo-se sempre “em cima do muro”. O conselheiro Aires – que além de grande observador dessa narrativa, é também voz da razão – conclui, portanto: “A razão parece-me ser que o espírito de inquietação reside em Paulo, e o de conservação em Pedro. Um já se contenta do que está, outro acha que é pouco e pouquíssimo, e quisera ir ao ponto que não foram homens. Em suma, não lhes importam formas de governo contanto que a sociedade fique firme ou se atire para diante.” (ASSIS, p. 198) São, de fato, o próprio impulso, o próprio regime – com os mesmos floreios e discursos: […]as duas vozes confundiam-se, de tão iguais que eram, e acabaram sendo uma só. Afinal, a imaginação Fez dos dois moços uma pessoa única.” (ASSIS, p. 147)

Por fim, é necessário retratar um episódio que pode ser compreendido também como metáfora a troca de regimes, de maneira até mais aclarada, que é o da troca de tabuletas na confeitaria de Custódio. A ele são reservados três capítulos, propriamente, além da menção em outros. No episódio da tabuleta do Custódio, a visão do romancista traduz perfeitamente a perplexidade, um sentimento que a todos interpelava naquela época. Remetendo a idéias como trocar de fachada ou mexer em alguma coisa para mudar coisa alguma. Custódio é confeiteiro e precisa trocar a tabuleta de seu comércio, que já está velha. E “Confeitaria do Império” não condiz mais com a época política do seu país. Conselheiro Aires faz certas sugestões, tal qual “Confeitaria da República” e também “Confeitaria do Governo”. No capítulo “Tabuleta Velha”, percebe-se claramente que este nome substitui “monarquia” no trecho que segue: “Aires: – Pois reforme tudo. Pintura nova em madeira velha não vale nada. Agora verá que dura pelo resto da vida. Custódio: – A outra também durava, bastava avivar as letras.” (ASSIS, p. 97) E Machado continua: “Quaisquer que fossem as cores, eram tintas novas, tábuas novas, uma reforma que ele , mais por economia que por afeição, não quisera fazer; mas a afeição valia muito. Agora que ia trocar de tabuleta sentia perder algo do corpo.” (ASSIS, idem.) Mas Custodio faz advertência a ambas por compreender que poderia prejudicar-se pela não-aceitação do nome pelas oposições políticas. Resolve-se por tanto, por “Confeitaria do Custódio”. Contudo, tabuleta velha ou nova, o fim permanece o mesmo: o confeiteiro continuará enfeitando e fazendo as coisas parecerem o que elas não são. As duas nações do ventre não são apenas império e república, mas também um Brasil do progresso e do conservadorismo, da sofisticação e da miséria. Como rótulos de um mesmo vinho, os regimes alteram-se meramente na nomenclatura, assim como os gêmeos de Machado: “Aires quis aquietar-lhe o coração. Nada se mudaria, o regime , sim era possível, mas também se muda de roupa sem trocar de pele. No sábado, ou quando muito na segunda-feira, tudo voltaria ao que era na véspera, menos a constituição.”  (ASSIS, p. 125)

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Esaú e Jacó. São Paulo: Martin Claret, 2005. 206 p.

BRITO, Luiz Fernando Godois. Da rua do Ouvidor ao 15 de novembro: cotidiano e representações da cena carioca em Esaú e Jacó, de Machado de Assis (finais do Império e primórdios da República).  1998. 102 f. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade de Brasília, Brasília, 1998.

PACHECO, João. In Realismo: 1870-1900(o). Capítulo I. 4. ed. São Paulo: Cultrix, 1971. pp. 7-11.

RYAN, Marco Aurélio. In A OBRA DE MACHADO DE ASISS. Machado de Assis: um retrato materialista do Brasil. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, 2006. Ensaios premiados no 1º Concurso Internacional Machado de Assis.

“Something has changed within me.
Something is not the same,
I’m through with playing by the rules of
someone else’s game.

Too late for second guessing
Too late to go back to sleep
It’s time to trust my instincts
Close my eyes and leap

It’s time to try defying gravity
I think I’ll try defying gravity
Kiss me goodbye I’m defying gravity
And you won’t bring me down…

I’m through accepting limits
Cause someone says they’re so…
Some things I cannot change but ‘till
I Try I’ll never know…

Too long I’ve been afraid of losing
Love I guess I’ve lost
Well if that’s love it comes at
Much too high a cost…”

Defaying gravity.

“I’m broke but I’m happy
I’m poor but I’m kind
I’m short but I’m healthy, yeah
I’m high but I’m grounded
I’m sane but I’m overwhelmed
I’m lost but I’m hopeful baby

An’ what it all comes down to
Is that everything’s gonna be fine, fine, fine…”

Alanis Morissette. Hand in my pocket.

fotografia amarelada

Não é preciso me agarrar a nenhuma fotografia amarelada para saber que não reconheceria a garotinha pequena e tímida na imagem que hoje se forma no espelho. Aquelas minhas madeixas escuras e lisas, de menina potira, pouco se parecem com os fios rebeldes que moldam o meu rosto fatigado, que mal consegue formar um sorriso ameno. Nem mesmo meus olhos têm o mesmo brilho inocente e piegas de antes, de quem acredita nas coisas simples…

Ah… certamente aquela jovenzinha tagarela não se imaginaria pintada nesse cenário escurecido, emudecida, engolindo o pranto,  tentando entender uma infinidade de porquês não respondidos… Certamente, ela também se sentiria decepcionada de ver que o mundo real não se parece nem um pouco com o que imaginava.  O mundo dos adultos é cor-de-rosa, pensava… A liberdade deve ser deliciosa… Enfiada entre os livros, ela sempre pensou que o amor era algo maravilhoso e fácil, que o dinheiro lhe levaria aonde desejasse, que os amigos de infância praticamente morariam com ela, que a faculdade lhe traria empregos incríveis, e, sobretudo, que o coração seria mais fácil de se entender.

Também não se sentiria nem um pouco satisfeita em saber que, quando crescesse, teria sentimentos ruins… que sentiria inveja das pessoas bonitas, pois a transformação de princesa que ela achou que teria, não aconteceu… que sentiria ódio de pessoas ruins, e às vezes de pessoas que nem se deu ao trabalho de conhecer melhor… que sentiria desejo por pessoas que não deveria, ainda mais sendo seu coração de um homem que ama… que se calaria para coisas que geralmente não faria… que brigaria quase todos os dias com a própria mãe, que já não suporta viver com ela, colocando-a para fora de casa… que não seria honesta em momentos talvez cruciais… que carregaria tanto rancor dentro do coração… que mentiria… que deixaria coisas importantes de lado…

Sem dúvidas ela também se entristeceria em saber que seu coração carrega um vazio imenso… das pessoas que perdeu, das oportunidades que não aproveitou, das palavras fortes que não deveria ter pronunciado, do silêncio que não deveria ter acontecido… das mágoas que alimentou… dos medos que fora incapaz de enfrentar… Ah, se ela soubesse que, quando crescida, ia se imaginar tão sábia e correta, e se descobriria tão falha e ingênua…

Se ela soubesse como é confuso esse mundo que chamam de real… Onde não se sabe se existe mesmo certo e errado… Onde ela não é vista por ninguém… Onde seu sofrimento é compartilhado apenas numa fria tela de computador, uma coisa que ela nem saberia o que é quando criança… Se ela compreendesse que nada daquilo que sonhara aconteceria, teria desperdiçado seus sonhos, noites e lágrimas?  Se soubesse o que aconteceria a cada decisão sua…Ah… se esse aperto no coração pudesse desaparecer…

Convite

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

Lya Luft. Convite.

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes. Ausência.

Classificados

            Acordei em mais uma daquelas manhãs preguiçosas, nas quais o sol se recusa a aparecer, e tudo que nos resta são as nuvens cinzentas do mês de junho. Peguei uma xícara com café e alguns biscoitos, que minha mãe deixara antes de sair para o trabalho. Num canto esquecido da cozinha, meu cachorro desfrutava um sono tranqüilo por cima do jornal. Confesso que não sou dos seus leitores mais assíduos, sempre dei preferência aos livros, contudo, naquele dia, senti necessidade em folheá-lo, procrastinando minha ida ao cursinho pré-vestibular, e deixando o chão gelado ao meu caro animal de estimação.

Em meio às notícias mais interessantes que encontrei no Correio do Povo daquela manhã, estavam os classificados. Cá entre nós, verdade seja dita, esta é, justamente, a parte mais engraçada de qualquer periódico. Fixei-me na seção de acompanhantes, quando me deparei com um anúncio bastante interessante, que me deixou intrigado. Seu nome era Maria Joana Knijnick. Em sua descrição, pude ler que era solteira e buscava compromissos matrimoniais. E sua única exigência era que o homem fosse sensível e lhe oferecesse flores.

Você há de se perguntar o porquê de meu interesse. Bom, entre tantas confissões que, provavelmente, hei de fazer a você, caro leitor, uma delas é que sou um rapaz muito romântico. Minha adolescência foi repleta de horas trancadas dentro de meu quarto lendo os grandes contos e novelas de nossos brilhantes escritores. E a cada leitura que faço, sinto que não pertenço a esta realidade dos sentimentos e anseios banalizados. E que melhor maneira de começar uma história de amor digna de um romance de José de Alencar do que um anúncio de jornal? Troquei-me rapidamente, e me dirigi a seu endereço, a Rua da Esperança, número quarenta e três.

            Chegando a sua casa, me deparei com uma casinha de aspecto mimoso, pintura cor-de-rosa, com as janelas esbranquiçadas. Na frente, havia um pequeno jardim colorido, com gardênias, margaridas e rosas exalando um perfume indescritível. Aproximei-me, timidamente, da porta e toquei a campainha duas vezes. Ajeitei minha roupa e segurei confiante o buquê de lírios brancos que lhe trouxera. Ninguém atendia. Toquei mais uma vez e comecei a andar em círculos. Que ansiedade mais infindável!

            Finalmente, uma senhorinha de cabelos tão alvos quanto as esparsas nuvens de um dia ensolarado me recebeu. Perguntei-lhe por Maria Joana, estava lá para encontrá-la. Repentinamente, pareceu-me que estava bastante perplexa com minha indagação. Sem dizer palavra, convidou-me para um chá com torradas e fez um gesto para que eu me sentasse em seu sofá azulado. Depois de um tempo de silêncio deveras constrangedor, a senhora me dirigiu o seguinte questionamento:

            – Por que um rapaz tão jovem procura uma moça para casar-se?

            É possível imaginar, a esta altura, caro leitor, que dei a ela a mesma resposta que lhes ofereci algumas linhas acima. Entretanto, não imaginei que minhas justificativas não a convenceriam. E, inexplicavelmente, passei a sentir calafrios por todo meu corpo. Se esta senhora fosse a mãe de Maria, que impressões teria de mim quando pedisse sua mão em casamento? Percebi que apertava o buquê com força demais, transpirava de pavor. Minhas torradas e chá estavam intocados.

            Continuou fazendo-me uma centena de questionamentos, a respeito de assuntos dos quais eu mal me recordo. Só podia pensar em como Maria deveria ter uma beleza exuberante e, ao mesmo tempo, delicada. Perdia-me no aroma de seu perfume, imaginava que seria fragrante como frutas secas, com uma pitada de pimenta rosa… Inventava seu andar, seus trejeitos, suas manias…

            A senhora, percebendo que não tinha minha atenção, deixou o prato de porcelana com alguns biscoitos que me trazia caírem pelo chão. Eu não compreendia muito bem, contudo, naquele instante, a senhora me pegou pela mão e agradeceu-me a visita, contando-me que sentia-se lisonjeada, repetindo a si mesma que eu era jovem demais, jovem demais. Quando dei por mim, estava, novamente, frente àquele jardim, que agora não tinha mais cheiro. E meus lírios ficaram pelo chão.

Laranja

“Ô menina, parece índia Ianomami seu cabelo preto breu
Simula um toque, que desabroche
Esse teu casto mastigado pelo meu
Se quer tamanho vou despir a alma
E afogar a calma salivando um beijo teu
Siga a seta e diga que sou seu…
Venha sem chão me ensina a solidão de ser só dois…
Depois te levo pra casa
Que o teu laranja é que me faz ficar bem mais”

Laranja. Maria Gadú.