A morte de Buendía.


“O Coronel Aureliano Buendía abandonou o quarto em dezembro, e bastou dar uma olhada na varanda das begônias para não tornar a pensar na guerra. Com uma vitalidade que parecia impossível em sua idade, Úrsula tinha voltado a rejuvenecer a casa. ‘Agora vocês vão ver quem sou eu’, disse quando ficou sabendo que seu filho viveria. ‘Não haverá casa melhor, nem mais aberta a todo mundo, do que esta casa de loucos’. Fez com que fosse lavada e pintada, mudou os móveis, restaurou o jardim e plantou flores novas, e abriu portas e janelas para que a deslumbrante claridade do verão entrasse até os dormitórios. Determinou o fim dos numerosos lutos superpostos, e ela mesma trocou as velhas roupas rigorosas por outras, juvenis. A música da pianola voltou a alegrar a casa. Ao ouvi-la, Amaranta se lembrou de Pietro Crespi, de sua gardênia crepuscular e seu cheiro de lavanda, e no fundo do seu coração murcho floresceu um rancor limpo, purificado pelo tempo. Na tarde em que tratava de por a sala em ordem, Úrsula pediu ajuda aos soldados que custodiavam a casa. O jovem comandante da guarda autorizou. Pouco a pouco, Úrsula foi dando a eles novas tarefas. Convidava para comer, dava roupas e sapatos de presente, ensinou-os a ler e escrever. Quando o governo suspendeu a vigilância, um deles ficou morando na casa, e ali prestou serviços durante muitos anos. No dia do Ano-novo, enlouquecido pelos desprezos de Remédios, a Bela, o jovem comandante da guarda amanheceu morto de amor debaixo da sua janela.”

Gabriel García Márquez. Cem anos de solidão.

Anagrama

Chegava em casa todos os dias encarando Adelina nos olhos, sem dizer palavra. Parava, por um instante que fosse, observando-a dali da porta mesmo, e entrava em seu quarto. Fez que ia aproximar-se, contudo, seguiu seu rumo habitual. Fechou-se em seu espaço e deteve-se num porta-retrato azul petróleo que jazia sobre a escrivaninha. Há tempos ela não se deparava com aquela linda fotografia. Agarrou-se, passando nela seus dedos trêmulos, como a pincelar um desenho em uma tela.

Era uma área coberta de árvores e cercada de flores brancas e amarelas, como uma ala encaminhando-a ao paraíso. Os pés dela estavam sujos de terra molhada, e estava sentada ao colo de alguém que não sabia mais distinguir quem era, apenas recordava-se da boneca de pano que mal apoiava em suas mãos, os outros brinquedos de sua infância rodeando-a. Encantou-se com a inocência que lia em seus próprios olhos, brilhantes que eram, agora quase incapaz de reconhecê-los no espelho. Ah, como gostaria de dizer que se reconhecia na faceirice desta menina que já fora.

Lembrou-se do encontro marcado para algumas horas mais tarde, e resolveu aprontar-se. Vestiu-se ali mesmo com um belíssimo vestido cor de anil bem marcado em seu corpo, e completou-se com perfumes e maquiagens. Largou o anel dourado ao lado do porta-retrato e cerrou a porta. Adelina lançou-lhe um olhar de reprovação. Ela manteve-se no vão da porta em silêncio, ainda ensaiando seus passos para deixar a casa.

Um jovem a esperava do lado de fora, seu automóvel recém-comprado, trajando um bonito terno, lendo despretensiosamente a gazeta “A Lenda”, algo sobre uma lei qualquer. Parecia bastante cansado do trabalho, mas deslumbrou-se com a sua chegada e esqueceu-se do resto. Ela, no entanto, sentia-se dominada por um sentimento mundano que percorria seu corpo, na ânsia do prazer a ser satisfeito, encaixando-se nos moldes da culpa, antes mesmo de cometer o pecado.

Pouco recordava de como chegara àquele quarto, apenas deixou-se perder em lascívia, apagando-se pela doçura do pecado, entrelaçando mãos. Seus olhos não conheciam mais a pureza, não se pareciam em nada com aqueles que encontrara na fotografia, eles permaneciam abertos, estarrecidos, indignados… Somente seus olhos não se enganavam pelo prazer que sentia seu corpo, encarando aquelas mãos que lhe percorriam, obsessivas. Como era vergonhoso despir-se neste espelho de prazeres… Por um instante achou que tinha visto brinquedos espalhados pelo chão…

 Aquele que a possuía não percebia a menina que ainda era, entretanto, agora fora capaz de compreender que não estava sedenta de sexo, e sim de um sorriso ingênuo como aquele da fotografia, por um amor tranqüilo, gostoso de ser respirado. Lembrou-se do olhar severo de Adelina, e arrependeu-se de abandonar seu compromisso e sua pureza jogados sobre uma escrivaninha, enquanto deixara roupas pelo chão de seu amante. Agora compreendera o porquê de não conseguir dizer nada à Adelina. Era muito difícil sentir culpa e encarar seu reflexo no espelho.