Palavras

Ela permanecia de olhos fechados, ouvindo o farfalhar das cortinas enquanto o vento invadia seu quarto, respingando a chuvinha matinal. Fazia horas estava acordada, relembrando os últimos momentos que passara com ele. Não podia compreender porque as palavras não lhe bastavam mais, sentia-se tomada por um silêncio confuso, devastador. Seu corpo jazia entorpecido sobre os lençóis turquesa, sua boca emudecida pela solidão daquele cômodo morto, ainda recusando-se a contemplá-lo.

Percebia os minutos deslizando no tempo, até que decidiu levantar-se. Primeiro, encarou a cor esbranquiçada e dolorida do teto e, aos poucos, escorava-se na cabeceira de sua cama. Puxou, para perto de si, o travesseiro dele, que continuava impregnado com uma essência amadeirada de seu perfume, da noite anterior, momentos antes de ela pronunciar aquela palavra. Deparou-se com sua imagem ao espelho, com os cabelos castanhos emaranhados, vestida em renda preta, e os olhos completamente vazios.

Já havia se despido de suas roupas e vergonhas, caminhando ao banheiro para tomar um banho. Veio-lhe à lembrança de que era domingo, não era preciso preocupar-se com o tempo que levaria para se recompor. Um silêncio em seus pensamentos, e a palavra lhe voltara à mente. Gostaria de não a ter pronunciado. Tudo estaria diferente agora… A água do chuveiro, que lhe caía sobre o corpo desnudo, contornando suas coxas torneadas, antes acariciadas por ele, se confundia com a garoa lá de fora.

Terminou seu banho, quase involuntariamente, e colocou uma camiseta velha e uma calça de moletom. Depois de ter dito aquela palavra, não havia porquês para se praticar feminilidades. A mesa continuava posta com a refeição que preparara, a sua taça de vinho marcada com batom cor-de-rosa, a conversa que tiveram vinha à tona. Ainda podia escutar sua voz rouca a fazer promessas de amor não-cumpridas nos últimos quatro anos, de perdões por erros há tempos cometidos, de esperanças lavadas em bordô. Ela fiou-se a ouvi-lo, sem dizer palavra, contemplando a ausência de ruídos na casa, não fosse a voz urgente de seu amante a clamá-la, incessante. Amava-o, era certo. Seu discurso envolvente a inflamara, por um instante, e delirava em sonhos de casa e família.

Não demorou a recobrar o juízo, contudo. Sabia que levavam a vida a dois cheios de emendas, rasuras, rascunhos.  Não podia continuar a viver assim. Não saberia encarar a pequena mesa de madeira posta com dois pratos de porcelana e talheres entalhados em cobre todos os dias. Não poderia mais discutir sentada à varanda rodeada de flores amarelas em vasinhos de barro em noites repletas de pontinhos brilhantes no céu. Não agüentaria acordar enroscada em seus finos lençóis turquesa ao lado daquele homem. Não permitiria que participasse de sua rotina daquela maneira. Não.

Dissera a palavra sem hesitar. O pedido fora enérgico, os olhos enegrecidos dele brilhavam tanto quanto o anel que trazia em sua mão. E mesmo assim, ela lhe dissera esta palavra. Não. Voltou a si, a mesa permanecia suja, os guardanapos jogados ao pé da mesa, próximos a uma caixinha azulada de veludo.  As mãos trêmulas pegaram-na e fitaram-na, num átimo de segundo. Era tarde. Caminhara por entre as roupas que havia usado, segurando aquele objeto, relembrando o baque da porta no momento em que ele a deixou. Se não fosse a chuva que engrossara do lado de fora, era possível dizer que a caixa fizera o mesmo som quando atingiu o fundo da lata de lixo.