Mme. Bovary

 

“Que expansão, na quinta-feira seguinte, no hotel, no quarto com Leon! Ela riu, chorou, cantou, dançou, mandou buscar sorvetes, quis fumar charutos, pareceu-lhe extravagante, mas adorável, soberba. Ele não sabia que a reação de todo o seu ser a impelia ,mais a precipitar-se nos gozos da vida. Ela tornava-se irritável, gulosa, voluptuosa; passeava com ele pelas ruas de cabeça levantada, sem medo, dizia ela, de se comprometer.”

Gustave Flaubert. Madame Bovary.

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Intertextualidade

Referências literárias em “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco.

Camilo Castelo Branco refere-se a vários escritores portugueses no decorrer do romance. Por meio da intertextualidade, o espaço desta novela converge para textos que se relacionam com a temática amorosa. É possível transpor para o universo romântico as cantigas que recriam o ideal de amor medieval.  É possível, inclusive – apesar de não ser um escritor português ou tampouco contemporâneo – fazer certo paralelo entre esta novela e a obra shakespeariana “Romeu e Julieta”, tal fizeram alguns estudiosos e críticos. Entretanto, não pode-se afirmar precisamente a existência de intertexto, portanto, o foco referencial será outro.

Além disso, pode-se citar as várias referências, diretas ou não, ao célebre escritor português Luís Vaz de Camões. E é a este outro ilustre literato que daremos destaque na questão das referências. Logo nas primeiras páginas, ao narrar a história de Domingos Botelho, Camilo cita:

“Já está dito que ele se atreveu aos amores do paço, não poetando como Luís de Camões ou Bernadim Ribeiro, mas namorando na sua prosa provinciana, e capitando a benquerença da rainha para amolecer as durezas da dama.” (p. 20)

Neste trecho, é possível visualizar que o autor usa da própria narrativa para exaltar o fazer poético, o fazer literário. Não apenas neste, mas em tantos outros adiante que, por diversas vezes, avizinha a figura de Simão Botelho a de um poeta. Tal é visto no cenário após a morte de Teresa:

“Mariana seguiu-o com aquele olhar quebrado e mavioso do Jau, quando o poeta desembarcava, segundo a idéia apaixonada do cantor de Camões.” (p.128)

Apenas situando que, aqui, cantor de Camões representa a figura de Almeida Garrette. E Jau, uma das personagens do poema elaborado por ele. Não se poderia esquecer também a explícita citação de outra obra do mesmo autor, por volta do capítulo XVI:

                        “- Não, minha senhora; o estudante continuava nesse ano a freqüentar a Universidade; e,como tinha já vasta instrução em patologia, poupou-se à morte da vergonha. que é uma morte inventada pelo visconde de A. Garrett no Fr. Luiz de Sousa, e à morte da paixão. que é outra morte inventada pelos namorados nas cartas despeitosas, e que não peganos maridos a quem o século dotou de uns longes de ilosofia, filosofia grega e romana,

porque bem sabem que os filósofos da antigüidade davam por mimo as mulheres aos seus amigos, quando os seus amigos por favor lhas não tiravam, E esta filosofia hoje então…” (p. 112)

 

Na conclusão da obra, Camilo se serve do episódio de Inês de Castro – situado no canto terceiro em Lusíadas. Através da fala da personagem Teresa, os versos do episódio  que narra o trágico amor de Inês por D. Pedro, Castelo Branco aproxima as duas histórias, envolvendo o conteúdo de sua narrativa com o lirismo trágico camoniano.

“A vida era bela, era, Simão, se a tivéssemos como tu ma pintavas nas tuas cartas, que li há pouco! Estou vendo a casinha que tu descrevias defronte de Coimbra, cercada de árvores, flores e aves. A tua imaginação passeava comigo às margens do Mondego, à hora pensativa do escurecer. Estrelava-se o céu, e a lua abrilhantava a água. Eu respondia com a mudez do coração ao teu silêncio, e, animada por teu sorriso, inclinava a face ao teu seio, como se fosse ao de minha mãe” (p. 131) 

“Estavas, linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo doce fruito,

Naquele engano da alma, ledo e cego,

Que a fortuna não deixa durar muito,

Nos saudosos campos do Mondego,

De teus fermosos olhos nunca enxuito,

Aos montes insinando e às ervinhas,

O nome que no teu peito tinhas.”

(Canto III – Os Lusíadas)

 

 

É interessante destacar que ambas as histórias são recriadas a partir do registro de fatos, além de apontarem o poder e finanças como empecilho do amor; o que, em relação a valores românticos, apenas o intensifica.

E as semelhanças vão além. Até mesmo a personalidade violenta e voluntariosa de Simão e a do príncipe possuem aspectos comuns: eles matam em nome do amor e em virtude da honra. E apesar de tais obras retratarem momentos históricos diversos, há uma aproximação de duas realidades aparentemente análogas. Assim como Camões, Camilo tenciona mitificar e eternizar, no imaginário de seus leitores, o amor de Simão Botelho e Teresa Albuquerque.

Em contrapartida, unindo o real à ficção, Castelo Branco defende a superioridade da obra de arte em sua relação com a realidade, posto é que durante a leitura desvela-se mistério e segredo. Além do que, a ficcionalização admite a realização do plano imaginário tudo aquilo que é impossibilitado pelo decoro do cotidiano. Portanto,  o olhar da modernidade pode escapar da realidade circundante e das fragilidades humanas.

escuridão silenciosa…

“Eu também não sei não pensar. Acontece sem esforço. Só é difícil quando procuro obter essa escuridão silenciosa. Quando estou distraído, caio na sombra e no oco e no doce e no macio nada-de-mim. Me refresco. E creio. Creio na magia, então. Sei fazer em mim uma atmosfera de milagre. Concentro-me sem visar nenhum objeto – sinto-me tomado por uma luz. É um milagre gratuito, sem forma e sem sentido – como o ar que profundamente respiro a ponto de ficar tonto por uns instantes. Milagre é o ponto vivo do viver. Quando eu penso, estrago tudo. É por isso que evito pensar: só vou mesmo é indo. E sem perguntas por que e para quê. Se eu penso, uma coisa não se faz, não aconteço. Uma coisa que na certa é livre de ir enquanto não aprisionada pelo pensamento.”

Clarice Lispector. Um sopro de vida.

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