Um retrato crítico do Brasil do século XIX

Uma resenha crítica da obra “As casadas solteiras”, de Martins Pena.

 

Logo no início da peça, nos deparamos com a figura do buon vivant Jeremias, ao desfrutar de uma das costumeiras festas santas, pelo simples prazer de aproveitar a vida. E é neste personagem que encontramos o desenrolar de toda a história: é ele quem, por diversas vezes, encaminha outras personagens e suas conseguintes decisões. É nele também, como fora dito anteriormente, que encontramos o maior retrato crítico da sociedade brasileira do início do século que aqui tratamos. Ele carrega em si o total descaso com o casamento, pois vive a fugir da esposa, o que pode ser interpretado como uma provável afronta ao religioso, já que o casamento é tido como instituição sagrada, tradição que era levada mais a sério em meados do século XIX . Jeremias é, além disso, o típico malandro que posta-se do lado de quem mais lhe convém: ao longo dos atos, ele toma partido de vários personagens. Tanto é assim que, mesmo ao fugir do matrimônio – falando figurativamente – durante quase toda a peça, ocorre que ao ver-se falido, volta a morrer de amores por Henriqueta, que na mesma cena chama-a de centopéia do diabo, peste, demônio e víbora, e também atesta:

“Pois agora também faço eu protesto  solene a todas as nações , declaração formalíssima à face do universo inteiro, que hei de fugir de ti como o diabo foge da cruz; que hei de evitar-te como o devedor ao credor; que hei de odiar-te como as oposições odeiam as maiorias.” ( Ato Segundo – Cena IX)

Contudo, ao presenciar sua nova posição, diz:

“Minha boa Henriqueta, minha querida mulher, agora que tudo perdi, só tu és o meu tesouro. Só tu serás a consolação do pobre Jeremias.” (idem)

Assim, Jeremias aparenta desligar-se do materialismo capitalista para apegar-se à tradição. E além da crítica ao casamento, é necessário perceber que a personagem de Jeremias é consciente da presença do estrangeiro e suas imposições culturais e até de certa exploração, contudo, é resignado e mostra-se contaminado pelos costumes e deleites dos ingleses.

“Ora, esses estrangeiros são capazes das maiores extravagâncias para nos chupares os cobres…” (Ato Primeiro – Cena I)

Até tenta, ridiculamente, adequar-se a linguagem deles:

“Adeus, John, tenho muito que passear, e é tarde. Farewell, my dear, Bolingbrok. How do you do? Give me some bread. I thank you. Hem? Tem que dizer a esta bela pronúncia? Até logo.” (Ato Primeiro – Cena IV)

            Fica também dúbio se Jeremias é muito ingênuo ou demasiadamente esperto. Preferimos, neste caso, entendê-lo pela segunda perspectiva.

Agora, retomando a figura de Henriqueta, podemos compreender que ela representa a tradição, especialmente a religiosa – aqui entenda-se matrimônio. É ela quem faz uma alusão pela qual se pode entender o título da peça. Tal fala se dá porque Henriqueta tenta convencer as filhas de Narciso que se não foram casadas na igreja em que foram criadas, que é a Católica Apostólica Romana (como é dito por Clarisse), sua união não será válida, visto ainda que seus maridos são protestantes. Com isso, ela reforça a presença do sagrado e a cultura passada de pai para filho.

“E vivam na certeza de que vocês não são mais que amantes de vossos maridos, isto é, casadas solteiras” (Ato segundo –Cena VIII)

Acreditamos que, ao longo da obra, presenciamos certos valores. E no que diz respeito à figura paterna, surge Narciso. Personagem esta que está intimamente ligado com a honra e aos princípios, é por seu nome que age de maneira tão superproterora com suas filhas, representando assim, o forte patriarcalismo. Além disso, Narciso é uma figura preconceituosa e xenófoba: não suporta os ingleses pelo simples fato de serem ingleses. E não aceita que suas preciosas filhas casem-se com estes seres, diz ele mesmo: Antes casem com o diabo!  Contudo, seu conservadorismo mantém a assertiva de que suas filhas devem casar com cidadãos de bem e bens: aqui, Pantaleão e Serpião. No fim das contas, ele propõe que o casamento ilegítimo de suas filhas com os ingleses deve ser encerrado para dar-lhes liberdade. Mas parece que não é somente o casamento que é visto como prisão, e sim que Narciso desejava libertar-se do fato de ver suas filhas unidas a alguéns que não sejam de seu desejo. No fim das contas, não há muita mudança no casamento com os ingleses ou com aqueles arranjados por Narciso, pois o casamento é tratado como contrato, e suas noivas como mercadorias:

“Entrem, entrem, meus caros amigos; aqui estão elas. Hem? Que vos parecem?” (Ato Terceiro – Cena XII)

Em falas como esta, podemos perceber crítica ao sistema capitalista, que está impregnado na fala da sociedade moderna. Sociedade esta que pé retratada em alguns de seus aspectos como pano de fundo, como as citações a bailes, máquinas, hotéis luxuosos, entre outros. E para ilustrar com efeito, temos um importante recurso do autor: a presença de dois estrangeiros já mencionados aqui: John e Bolingbrok.  Através deste recurso, o autor demonstra as influências do estrangeiro – como fator de alteridade tanto no cenário da obra quanto na literatura de uma maneira mais generalizada. Em suas falas, temos alusões ao liberalismo e ao acúmulo de capital. Aqui os ingleses têm sua própria imagem como pleno poder. Na fala de Bolingbrok:

“Inglês faz tudo, inglês pode tudo, está muito satisfeita.” (Ato Primeiro – Cena X)

            (Seu modo de falar, sem concordâncias e pouca preocupação, demonstram que esta personagem não deseja adequar-se a outra cultura.) A idéia de enriquecimento e sucesso financeiro tornam-se mais importantes do que qualquer segunda ordem. Os estrangeiros sugerem que o brasileiro não sabe fazer seus gastos e que não são capazes de gerenciar a própria economia:

“Brasileiros sabe mais gastar do que ganha” (Ato Segundo – Cena IV)

E além disto, a mesma personagem ainda cita:

“Brasil é bom para ganhar dinheiro e ter mulher…Os lucros…cento por cento… é belo!” (Ato Segundo – Cena X)

            A fala desta personagem é impregnada de preconceitos e apenas eleva o status dos ingleses como exploradores. Tanto John como Bolingbrok  não dão brechas para os desejos de suas mulheres, sinal típico de conservadorismo: a mulher vista como propriedade. E nesta perspectiva, podemos comprovar tal aspecto por meio da figura das filhas de Narciso, Clarisse e Virgínia, que, de súbito, tomam consciência dessa exploração. A primeira impressão das moças fora de que a realidade ao lado do estrangeiro, ou seja, de outros costumes, seria melhor. Há de se levantar um questionamento se a união entre o Brasil e o estrangeiro formariam um mau “casamento”. As ingênuas e românticas irmãs sentem-se tratadas como escravas, sinal de que alimentavam um amor tipicamente romântico, que fora modificado com a convivência. Então, seu amor “real” gera fuga e vingança. Vingança esta que é tão amena quanto toda a obra tratada: as moças passam a maltratar seus pretendentes de modo a fazê-los pagarem pelos maus tratos. O que aparentemente faz crer que os papéis de dominador e dominado se invertem.  E neste jogo de conquistas e interesses, fica no ar se há realmente amor entre estes casais. Entretanto, o que tudo indica, é que apenas seja parte de um ciclo, onde os ingleses voltam ao domínio e tratam suas esposas, as casadas não mais solteiras, como posse.

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Não-dor

“Respirou fundo. Morangos, mangas maduras, monóxido de carbono, pólen, jasmins nas varandas dos subúrbios. O vento jogou seus cabelos ruivos sobre a cara. Sacudiu a cabeça para afastá-los e saiu andando lenta em busca de uma rua sem carros, de uma rua com árvores, uma rua em silêncio onde pudesse caminhar devagar e sozinha até em casa. Sem pensar em nada, sem nenhuma amargura, nenhuma vaga saudade, rejeição, rancor ou melancolia. Nada por dentro e por fora além daquele quase-novembro, daquele sábado, daquele vento, daquele céu azul – daquela não-dor, afinal.”

Caio Fernando Abreu. Estranhos estrangeiros.