Presente imperfeito.

Estou desacreditando o amor.

Confesso –  e como tenho sentido necessidade em me libertar de certos pensamentos… –  que imaginei tantas vezes esta frase escrita no pretérito, mas não pude.  Pus a reformulá-la tantas e tantas vezes, mas esta é uma constatação corrente em minhas verdades, e não posso ignorá-la.  Tentei floreá-la, também sem sucesso. Por isso, estas tantas linhas as quais me proponho não são fruto de labor poético, são entranhas incontroláveis, devaneios que não mais posso censurar.

Sinto-me exausta em me deparar incontáveis vezes com laços afetivos desfeitos, laços que julgara firmes e que vêm se desmanchando às minhas vistas, como se fossem nada. Como se o sentimento se esvaísse pelo ar, assim, simples. Não é, de forma alguma, simples…

Estou tão desacreditada deste sentimento, e mesmo assim, em meus lapsos, escrevo amor quando deveria estar escrevendo outras palavras. Essa sensação que me deixou impregnada, numa busca inútil, pelo nada.

Estou mais que farta desse interminável ciclo, que chamaram de amor perfeito. Onde, primeiro, nos jogamos em seus braços, nos entrelaçamos, incorporando o outro em si, esquecendo-se de si. Criamos um molde de par perfeito, que começa a desmanchar na primeira chuva, e vai sofrendo com as rachaduras do sol, com as ventanias, até o ponto de desfigurar-se ao pousar de uma borboleta. Depois, a escultura é só argila, e não lhe sobra nada.  E, então, esse resto de coisa alguma procura agregar-se ao que estivera em volta, e fora ignorado antes. É tão dolorido deparar-se com a verdade de um fim inesperado, que lhe resta apenas a ânsia de enganar o tempo, transfigurando-se em escultura nova.

Não é preciso dizer que tudo se constrói e destrói de novo, e de novo…

Já não me sinto leve, não me sinto segura, de olhar-me e sentir-me escultura desfeita, laço desamarrado, pouso de borboleta devastador. Esse presente imperfeito, que não me deixa libertar, que não me deixa viver uma verdade apenas, me põe em certo desespero que não posso mais conter.

O que significam afinal, as palavras, o toque e o sorriso? Por que todo gesto de amor tem de ser ressignificado a troco de nada? De que serve esta cumplicidade falha, que simplesmente desapareceu do seu olhar? Não consigo encontrar lógica em me encontrar transfigurada a cada dia, estranhando meu rosto a cada fotografia, desconhecendo as mãos que me acariciam…

Quero ver a verdade em seu sorriso, sentir que seus olhos são janelas que me expõem os teus segredos, medos e aflições… Desejo sentir-me cúmplice, sem temor, de entregar-me para que você me faça moldada . Ah…estou tão enfastiada de fazer-me molde, de me construir a cada acesso de fúria da natureza…

Quero me sentir acariciada por mãos verdadeiras, firmes, que passearão por meus cabelos e desvendarão o meu corpo como a única de suas ambições…

E cobiço, em meus devaneios mais insólitos, transfigurar o amor em coisa presente, um presente perfeito, onde todas as minhas angústias, anseios e descrenças possam ser veladas por tuas mãos.

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