…medo do efêmero…

“Eu tenho medo do efêmero. Temo o fim dos ciclos. Receio pelo desatar de nós que eu quero eternos. Sempre detestei despedidas e sofro mesmo que elas não existam, precisando apenas de um “até breve” para me martirizar com lágrimas. […] Todos os dias, eu passo por uma ponte, a qual liga meu passado a meu presente. Atravesso anos de distância no tempo contemplando fotos e sorrisos de outrora, recordando o momento em que fui capturado com antigos amigos. No meu rosto, alternam-se sorrisos e lágrimas despertadas por memórias.”

Vivian Resende. Manifesto Pseudoparticular.

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O nada.

Revirei as correspondências que guardava há alguns anos numa caixinha de um vermelho já desbotado. Me detive em uma das tantas cartas, ainda sem saber o que procurava em meio a tantos escritos acumulados de memórias, com páginas amareladas, amarrotadas, enroladas em flores e espinhos. Aquela caligrafia em lápis preto tão marcante me intrigava… como poderia ter me esquecido daquelas linhas tortas, daqueles traços compridos, daquela mão que sempre me escrevia tão ávida, tão urgente de vida, desejando conhecer o mundo além do papel, àquela época, esbranquiçado?

Me deleitava sobre aquela prosa romanceada, inundada de promessas infinitas, feitas para a vida inteira. Eram sonhos ímpares porquanto fossem inatingíveis e, talvez por isso mesmo, tão belos de serem lidos. Me emociono tanto, que mal posso conter minhas palavras simples de escorrerem sobre esta folha, me derretendo a cada sílaba, sentindo a urgência de recuperar o tempo passado, revivê-lo, respirá-lo, incorporá-lo. Era incrível como ainda podia sentir aquele perfume de meninice errante, de quem percebe o prazer pela inocência do pecado.

Impregnada por aquela correspondência com meu passado, eu exalava a essência de quem um dia fora parte da história de alguém. Essa sensação percorria meu corpo, urgindo a lacuna daqueles abraços, agora, envolto em solidão. Aquele colo que me alentara, aquela boca que proferia apenas as palavras necessárias, aquela letra corrida que arrancava as lágrimas mais precisas, aquele olhar que me eximiu de todas as culpas.

Agora me recordo o que buscava. Eu necessitava do fôlego primeiro, para despertar minha alma desta miséria conformada. Assim, me deparo, novamente, com aquelas palavras escritas num papel já renegado. As lágrimas tornam a manchá-lo, incessantes. Era minha caligrafia, em todas aquelas cartas. Tristemente recordei. Eu pertenço ao nada.