Luar

De brejo em brejo,
os sapos avisam:
–A lua surgiu!…

No alto da noite as estrelinhas piscam,
puxando fios,
e dançam nos fios
cachos de poetas.

A lua madura
Rola,desprendida,
por entre os musgos
das nuvens brancas…
Quem a colheu,
quem a arrancou
do caule longo
da via-láctea?…

Desliza solta…

Se lhe estenderes
tuas mãos brancas,
ela cairá…

Guimarães Rosa. Luar.

Ardência

Compreendo, agora, porque ardia por teus beijos. Implorando-os incessante, desconfortante. Ultrapassando meus limites do querer, desejando-te numa esfera incompreensível…Tuas carícias eram tão últimas, tão urgentes… que desfaziam-se no ar.Meus dedos escorriam tua face, incapazes de te alcançar. Teu hálito era sopro de vida,  sussurrando, me impedindo de tocar o amor concreto. É a fatalidade do efêmero que me confronta, na minha imobilidade rumo ao que é real.

Continuo a buscar a suculência de teus lábios na boca de estranhos,  sentindo, num frêmito, o amargor da ilusão ao encontrar olhos alheios em teu lugar. E paira, em minhas mãos trêmulas, teu perfume – que recusa a se dispersar. Teu cheiro de planta vermelha orvalhada. Teu sabor de fruta  fresca, teu calor de sol matinal.

Agora, a febre me condena, sinto calafrios por toda parte e nenhum toque seu ou lembrança que me mantenha de pé.  Tudo é escuro e frio, enfim. Nesta ardência febril, apenas me deixo conduzir pelo devaneio primeiro, da urgência do teu  gosto em minha boca, do teu sorriso atravessando meu corpo, dos teus olhos semi-cerrados, a penetrar minha alma.  Minhas mãos ainda buscam o vão, encontrando tão-somente uma parca luminosidade, que me proíbe amanhecer.

És apenas um espectro.