a máscara

“Eu sei que há muito pranto na existência,

Dores que ferem corações de pedra,

E onde a vida borbulha e o sangue medra,

Aí existe a mágoa em sua essência.

No delírio, porém, da febre ardente

Da ventura fugaz e transitória

O peito rompe a capa tormentória

Para sorrindo palpitar contente.

Assim a turba inconsciente passa,

Muitos que esgotam do prazer a taça

Sentem no peito a dor indefinida.

E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca

A humanidade ri-se e ri-se louca

No carnaval intérmino da vida.”

Augusto dos Anjos. A Máscara.

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Cotidiano

Tão cinzas nesta cidade sem cor, passeiam duas pombas pelo chão. Em meio ao barulho ensurdecedor e a esta poluição visual, me peguei a observá-las a buscarem e dividirem um mísero pedaço de pão. A multidão os ignorava e eu não podia parar de fitá-los, perdida no êxtase do cotidiano. Neste céu de nuvens esbranquiçadas e esparsas, os poucos raios de sol lhes marcavam, ofuscando minhas vistas.

Me distraio pegando um bloco de papel, num desejo súbito de registrar a singela cena. Não confio mais em minhas retinas, tampouco em minha fraca memória. Os pequenos e gordos passarinhos aproveitam-se de meu lapso e desaparecem dentre a multidão circundante. Satisfeitos de terem cumprido sua função de desviar meus olhares destes andantes de rumo tão incerto.

Agora, um ou outro transeunte se volta para aquela que escrevia linhas, absorta por um motivo qualquer. Meu olhar ainda buscava por aquelas pequenas criaturas, e por algo ainda indefinido – eu apenas sentia que desejava mais.

Passei a contar os minutos, pensando em minhas obrigações, meus afazeres, minha memória se afastando das pequenas pombas. Já me martirizava pelo o que deixara por fazer, pelo tempo despendido naquele espaço, sentindo a enorme lacuna que deixara no tempo alheio, me preocupando em não me preocupar.

Fecho, portanto, os olhos e percebo, uma última vez, aqueles passarinhos compartilhando amor e tempo. E como, ah, como eu desejo pensar apenas em repartir meu pão…

…perder-se…

“É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo. Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas estou tão pouco preparada para entender. Mas como faço agora? Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê.”

Clarice Lispector. A paixão segundo G.H.