Vidraça

As cenas eram remontadas continuamente em meus pensamentos, suplicando para não caírem em pleno esquecimento. Teus movimentos gentis e afobados me desconcertavam. Tua nudez infantil, de olhos fitos, me desprezava. Eram sombras apartadas, no começo. O prazer que vinha de tuas mãos era aterrador. Tanta sutileza, tanta perspicácia, tanta falta de amor.

O toque deslizava pelas costas, eriçando os pêlos daquele corpo que se entregava. Nada lhe trazia o rubor à face, as vergonhas eram deixadas para lá. Teu sorriso jocoso já contava, tudo era fruto de gracejos, e só. Os lençóis caiam sobre o chão num sussurro,  e teus braços envolviam o corpo inerte. Engasgavam-me as palavras. Era tanto para ser dito, tão pouco para ser verbalizado.

As sombras misturavam-se, remexiam-se. Os ruídos atravessavam as paredes, a porta, as vidraças. Meu corpo, estarrecido, não acompanhava os movimentos. Meus olhos cerravam-se, doloridos. Minha curiosidade irrompia neste parapeito da janela, donde eu observava meu amor ser entregue ao júbilo de outra mulher.

Os irmãos Grimm

Jacob e Wilheml Grimm, mundialmente conhecidos por seus contos de fadas, nasceram em fins do século XVIII na Alemanha, alguns acreditam que na cidade de Hanau, enquanto outros crêem que tenham nascido em Berlin. Contudo, faz-se necessário ressaltar sua contribuição em outras áreas do conhecimento que não a literatura. Segundo Jack Zipes (2003), os irmãos Grimm inauguraram, em seu país, pesquisas em antiguidades, lingüística e filologia – estudo de uma língua em todos os seus aspectos e dos escritos que a documentam, além de conduzirem estudos em história, religião, direito e folclore. Eram verdadeiros ícones da intelectualidade alemã, dominando uma série de línguas, aproximadamente uma dúzia, dentre as quais o latim, o grego, o inglês, o francês, o espanhol, e o alemão, evidentemente.

Um fato interessante a se enfatizar é o de que, embora fossem cinco os irmãos da família Grimm, apenas Jacob e Wilhelm respondiam pela alcunha Irmãos Grimm, por compartilharem seu trabalho e também pela diferença mínima em suas idades. E é no início do século XIX, no ano de 1806, que iniciam sua jornada pelos contos de fadas, publicando uma coletânea em dois volumes em 1812 e 1814, intitulada Children’s and Household Tales, que poderíamos traduzir para algo próximo a Histórias para crianças e para o lar – que são, em suma, uma espécie de documentação da tradição das narrativas repassadas oralmente.

De acordo com Michael Iba e Thomas Johnson (200?), Wilheml e Jacob sintetizavam e reescreviam as várias versões destas historietas, criando a sua própria. Lembrando ainda que, apesar de serem de nacionalidades diferentes, e de séculos diferentes, as versões de Charles Perrault e dos irmãos Grimm às vezes se confundem. Ademais, estes contos foram, claramente, influenciados por cidades pelas quais os irmãos passaram; e, de fato, os irmãos Grimm retrataram a história européia nas minúcias de seus contos, como poderemos ver em O flautista de Hamelin, que é, curiosamente, uma das únicas narrativas que contém a figura de um músico – além desta, temos apenas os Músicos de Bremen, cujos protagonistas são animais. Aliás, é intrigante que sejam tão poucos os registros de protagonistas músicos; questiona-se se esta seria uma profissão que já naquela época não era levada com seriedade pela maioria.

Não obstante, as escolhas destes autores para os protagonistas de suas histórias revelam tipos sociais – que vão desde a nobreza, como a Gata Borralheira, até fazendeiros e outras pessoas pobres, como é o caso de João e Maria. É capital ainda salientar as características que os autores designavam a seus heróis, sempre corajosos e destemidos – o que se tornou prato cheio para a burguesia da época, que, por vezes, faziam uso dos contos de fadas para educar suas crianças, demonstrando como deveriam ser. Destaca-se, ainda, que os heróis não necessariamente sejam aqueles que salvam as “mocinhas”, mas sim a personagem que supera os percalços. Nesta época, os contos já eram contados para crianças e não mais entre os adultos. Inclusive, por meio de João e Maria, os pais ensinavam as conseqüências sofridas por crianças que saiam de casa sem a permissão dos pais. Na versão dos Grimm, os irmãos eram cozidos no forno da bruxa da casa de doces. Além destes, os Grimm compilaram as seguintes histórias: Rapunzel, O ganso de Ouro, O alfaiate valente, Chapeuzinho vermelho, A bela adormecida, O príncipe sapo, Os sete anões e a Branca de neve.

Ainda a respeito de sua biografia, Os irmãos Grimm passaram seus últimos anos lecionando história e lingüística, contudo, foram afastados da academia por razões políticas – após serem vistos em um protesto para abolir a constituição da dinastia Hanover, monarca alemão. Retornando, pois, para Berlin, se dedicaram à preparação de um dicionário na língua alemã, traçando a origem de cada palavra. O primeiro volume desta obra possui mil oitocentas e vinte e quatro páginas, e sua última palavra começa com a letra “b”. Ou seja, seu trabalho ficou incompleto, tendo em vista que os irmãos Grimm morreram em meados de 1860’ – cerca de vinte e cinco anos após iniciarem o projeto. Todavia, estudiosos deram continuidade à obra, terminada no ano de 1960.

Tendo em vista sua história, faz-se crucial a análise do conto escolhido, O flautista de Hamelin. Esta é uma narrativa folclórica, que relata um incidente incomum na cidade de Hamelin, que fora atacada por diversos ratos, no ano de 1284 – data bastante próxima a da peste negra, estudada na narrativa Decameron. Daí a proximidade da contextualização histórica: já no início, podemos perceber uma situação de total insalubridade.

Outro ponto é a marcação de tipos sociais, típica nos contos dos Grimm – o que é chamado por Vladmir Propp (1928) de personagem unidimensional. Neste caso, falamos, claramente, da nobreza. Ressalta-se duas expressões referentes aos habitantes da cidade. Logo no início do conto, situado no primeiro parágrafo, eis o trecho:

Há muito, muitíssimo tempo, na próspera cidade de Hamelin, aconteceu algo muito estranho: uma manhã, quando seus gordos e satisfeitos habitantes saíram de suas casas, encontraram as ruas invadidas por milhares de ratos que iam devorando, insaciáveis, os grãos dos celeiros e a comida de suas bem providas despensas. (Grifos acrescentados)

Considerando tal situação, os homens poderosos da cidade resolveram anunciar uma recompensa para aquele que conseguisse se livrar da infestação de ratos. Uma recompensa de cem moedas de ouro. Confira-se o quarto parágrafo, primeira linha:

 

 

Pouco depois se apresentou a eles um flautista taciturno, alto e desengonçado, a quem ninguém havia visto antes, e lhes disse: ‘A recompensa será minha. Esta noite não haverá um só rato em Hamelin’. Dito isso, começou a andar pelas ruas e, enquanto passeava, tocava com sua flauta uma melodia maravilhosa, que encantava aos ratos, que iam saindo de seus esconderijos e seguiam hipnotizados os passos do flautista que tocava incessantemente.

Com sua melodia, o músico retirou da cidade todos os ratos e os levou até um rio, onde todos morreram afogados.

Retornou, então, à cidade, no intento de receber sua recompensa, mas os ricos homens não quiseram lhe pagar, alegando que ele não fizera lá grande trabalho, conforme o oitavo parágrafo, primeira linha:

 

 

Furioso pela avareza e ingratidão dos  hamelineses, o flautista, da mesma forma que fizera no dia anterior, tocou uma doce melodia uma e outra vez, insistentemente. Porém, esta vez não eram os ratos que o seguiam, e sim as crianças da cidade que, arrebatadas por aquele som maravilhoso, iam atrás dos passos do estranho músico. De mãos dadas e sorridentes, formavam uma grande fileira, surda aos pedidos e gritos de seus pais que, em vão, entre soluços de desespero, tentavam impedir que seguissem o flautista.

 

 

 Como se pôde prever, assim como os ratos, as crianças foram levadas para longe e jamais retornaram:

“E na cidade só ficaram seus opulentos habitantes e seus bem repletos celeiros e bem cheias despensas, protegidas por suas sólidas muralhas e um imenso manto de silêncio e tristeza. Foi isso que se sucedeu há muitos, muitos anos, na deserta e vazia cidade de Hamelin, onde, por mais que se procure, nunca se encontra nem um rato, nem uma criança.”

 

            Por fim, faz-se necessário destacar alguns elementos propostos por Vladmir Propp, em sua obra denominada Morfologia dos contos de fadas (1928) que, segundo o autor, estão inevitavelmente presentes em quaisquer contos de fadas. O primeiro deles é a ausência, que pode ser percebida no momento em que o flautista deixa a cidade, levando consigo os ratos e, em seguida, as crianças. O segundo elemento é a ordem, que parte dos homens ricos da cidade, cujo desejo maior era o de se verem libertos da infestação de ratos. Em seguida, temos a punição, os homens da cidade punem ao não recompensarem o flautista por seu trabalho e, por sua vez, o músico pune a cidade por sua avareza e impureza de coração, levando o que de mais puro lá havia, as crianças. Há ainda a salvação do herói, que ocorre duas vezes neste conto de fadas: a primeira, quando o flautista retira os ratos de Hamelin e, a segunda, quando afasta as crianças do povo mau e avarento. Enfim, há o ato de ludibriar que, neste conto, se dá por meio da canção do flautista, além, é claro, da magia encontrar-se personificada na flauta mágica deste músico.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GRIMM, Jacob; GRIMM, Wilhelm. O flautista de Hamelin. Alemanha: 1812.

IBA, E. Michael; JOHNSON, Thomas L. The German Fairy Tale Landscape:  The storied world of the Brothers Grimm. 200?.

PROPP, Vladmir. A morfologia dos contos de fadas. Rússia: 1928.

ZIPES, Jack. The Brothers Grimm: from enchanted forests to the modern world. 2 ed. New York: Palgrave Macmillan, 2003.

Era amor…

Eu observava seus movimentos comedidos, e corava. Suas mãos transpiravam, buscava o horizonte, disperso, e seu corpo era incapaz de falar. O tempo, estagnado, percorria apenas aquele espaço entre nós. Levantou, então, os olhos e eu já sabia. Não era preciso dizer palavra. Eu entendia seu pedido. De súbito, os ruídos da multidão que nos cercava não faziam mais sentido, eram canção sussurrada e só.

Agarrou minhas mãos com a suas, num movimento brusco, que ele mesmo não previra. Seu calor percorria também pelo meu corpo naquele toque sincero. Era amor. Largara minhas mãos para tocar o meu rosto e, num ímpeto, seus lábios se moveram. E eu podia, finalmente, maravilhar-me com seu lindo sorriso. Decidiu, por fim, falar. Suas palavras percorriam espaços mínimos até os meus ouvidos, e eu me embebia, me embriagava com elas.

A ponta de seus dedos dançava em meus cabelos, quando aquiesci. Agora, seus olhos transmitiam um brilho indescritível. E eu sorria, somente. Estávamos em completo silêncio – nós, e todos aqueles que observavam, sem nos dispor um olhar sequer. Suas mãos agora me envolviam em um abraço quente e seus lábios vieram sorrir junto aos meus.  Levantamo-nos e nos encaramos por um segundo ínfimo. Ele segurou  minha mão novamente – agora, sem tremores, sem força, suave. Me sentia cúmplice, e caminhava. Caminhávamos. Éramos namorados.

As sem razões do amor.

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade. As sem razões do amor.

Correspondência

Escrevia aquelas linhas às pressas. Como tudo o que fizera sempre. Deixava que suas palavras jorrassem sobre aquele papel sem vida, que aos poucos refletiam a sua própria imagem. A angústia o dominava, maltratava, corroía. Sentia suas entranhas doerem. Então, parou.

Deparou-se com ela. A carta, agora, era tal uma cidade vista de cima, com muitos pontinhos brilhantes, difusos, incompreensíveis. E ele sentia-se como um poema em versos brancos – imprevisível e efêmero. Tudo perdera sua razão de ser. E a razão fora sempre a mesma.

O vento batia em sua janela, avisando-lhe que não havia nada mais a ser feito. Os pontinhos no papel alvo ainda não faziam o menor sentido. E ele observava, sem saber o que dizer. Parecia então embriagado, deixando-se cair por cima daquela carta e fechando com força olhos. Parecia decidido a esquecer.

Balançavam as cortinas, tão suaves e incessantes, que soavam como sua canção preferida de amor.  Atordoou-se. Levantara, pois, os olhos e sentira a brisa, traindo-o, sorrateira, tomando aquele pedaço de papel para si e tornando-o tão nítido e cristalino.  Nesgas de sol iluminavam palavra por palavra, enquanto ele ainda perdia-se em amarguras.

Caíra, finalmente, ao chão, a carta. Pela janela, ele observa aquela mulher resgatá-la. Não é preciso abri-la. A verdade está lá, dita (e dolorida)…

‘Querida, teu amor é como uma prosa inacabada, que deseja ser poesia, e que não se liberta. Vivemos em cárcere, acreditando que este sentimento surge em vez única. Meu amor é ode à todos os poetas, e tua ode se finda, o sentimento se esvai, e me quedo em silêncio…’

Seguiam-se linhas intermináveis sem assinatura, agora, sem nitidez alguma. Não chovia, mas cada palavra estava marcada por pingos d’água…