“[…]ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um branco frio, ou quem sabe sepulcral, mas sempre a negação de tanta intensidade e tantas cores: acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba por nada sentir, de tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto que quer viver;[…]”

Raduan Nassar. Lavoura Arcaica.

Intencionalidade

Passaram-se dias, até que ela fosse capaz de olhar-se no espelho, encarando sua imagem, sem que sentisse vergonha do que fizera. Não lhe bastavam as corriqueiras desculpas de autodescoberta, de libertação.

Ainda havia algo em seus olhos que não era capaz de reconhecer. Ela mudara, profundamente.

Desistira de todos aqueles papéis amassados, com palavras inúteis de consolação… Seu rosto tentava revelar-lhe uma verdade –  tão pura e simples – e ainda não era capaz de aceitar… Continuava a rezar por redenção, e suas lágrimas eram insistentes neste intento.

Mesmo sem cerrar os olhos, ainda podia sentir todos aqueles outros pares de olhos julgando-a, condenando-a por um crime tão imperfeito de amor. Perguntava-se, sem compreender, o porquê de tantas expressões reprovadoras. Só queria amar, afinal.

Não passaram de fagulhas, porém. Se foram as sensações daqueles corpos que se tocam, os suspiros ensandecidos se enfraqueceram. Restou apenas o silêncio. Seu silêncio.

E sua busca permanecia sem término. Uma profusão de sentimentos a percorria por inteiro, deixando rastros por todo lugar.

Por fim, entendera. Não podia reconhecer-se. Ainda estava se conhecendo.  E aquele olhar frente ao espelho tinha tanto a dizer, que não era necessário proferir palavra. Ela, agora, bastava-se.

Piscantes

Luzes e mais luzes
Uma música que anunciava:
Hoje é dia, é noite de mudança.

Aprecie-se.
Olhe-se.
Todos olham pra você.

Dance, dance e dance…
Mais e mais
Libere sua energia
É assim que se faz.

Pouca conversa, muita ação.
Conversa demais, num vi aquele beijo não.
Opa, algo mudou.
Não foi só por fora,
Veja…sua alma agora saltita
E exala felicidade, sensualidade!

Que beleza!
Exclame, sinta, viva!
É assim que as coisas fluem…
É assim que você fluiu.
Naquela dança que todo mundo viu.

A espera

Fiquei esperando por ele. Enquanto isso, brincava de olhar os desenhos das nuvens, tentando me encontrar em algum deles… Me imaginava construindo versos, delirando, buscando o luar… Então, me dei conta de que as luzes da cidade me distraiam até mais que as nuvens, embaralhando minha visão…

Me enganava. Ele não viria. Mesmo assim, esperava. Com os olhos embargados, esperava. Tanto mais eu desviava, meus pensamentos retornavam a um só lugar – ele. Me embriaguei em sua melodia, me vi repetindo tudo como em um refrão – incessante, constante e perturbador. Não me adianta mais a visão da minha janela, tampouco minha voz perdida em uma canção qualquer…

Deixei-me estar sobre a cama, emaranhando meus cabelos entre os travesseiros. Agarrei-me com toda intensidade a um deles – o dele. Seu perfume ainda exalava, alucinando, estranhamente me confortando…

Meus olhos já não queriam encarar as horas, minhas mãos não queriam encarar o vazio, mas era apenas isso que havia… Ele não estava lá. Eu desejava sua presença, e ele não apareceria… Não haveria mais sapatos jogados, camisas, nenhum de seus pertences… E meu corpo implorava por ele, censurando meus vestidos, minhas blusas, com suas mãos. Meu corpo perdia-se em êxtase, imaginando quantas canções nos embalaram… e, ainda assim, se punha a esperar…

Ele não pertencera a mim.

Ele não vem. E o tempo agora é infinito em minha espera…

Canção elegíaca

 

“Quando os teus olhos fecharem

Para o esplendor deste mundo,

Num chão de cinza e fadigas

Hei de ficar de joelhos;

Quando os teus olhos fecharem

Hão de murchar as espigas,

Hão de cegar os espelhos.

Quando os teus olhos fecharem

E as tuas mãos repousarem

No peito frio e deserto,

Hão de morrer as cantigas;

Irá ficar desde e sempre,

Entre ilusões inimigas,

Meu coração descoberto.

Ondas do mar – traiçoeiras ­

A mim virão, de tão mansas,

Lamber os dedos da mão;

Serenas e comovidas

As águas regressarão

Ao seio das cordilheiras;

Quando os teus olhos fecharem

Hão de sofrer ternamente

Todas as coisas vencidas,

Profundas e prisioneiras;

Hão de cansar as distâncias,

Hão de fugir as bandeiras.

Sopro da vida sem margens,

Fase de impulsos extremos,

O teu hálito irá indo,

Longe e além reproduzindo,

Como um vento que passasse

Em paisagens que não vemos;

Nas paisagens dos pintores

Comovendo os girassóis

Perturbando os crisantemos.

O teu ventre será terra

Erma, dormente e tranqüila

De savana e de paul;

A tua nudez será fonte,

Cingida de aurora verde,

A cantar saudade pura

De abril, de sonho, de azul

Fechados no anoitecer.”

Joaquim Cardozo. Canção elegíaca.

Poema desentranhado

Uma análise do poema de Manuel Bandeira, a partir do texto teórico de David Arrigucci Jr. 

Poema tirado de uma notícia de Jornal 

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou

Dançou

Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

(Manuel Bandeira)

 

Davi Arrigucci Jr., em sua obra denominada “Humildade, Paixão e Morte” publica o artigo “Poema Desentranhado”, onde se dedica a destrinchar o pequeno “Poema tirado de uma notícia de jornal”. Vale ressaltar a importância deste vocábulo que compõe o título do artigo, que significa: “que se tirou das entranhas, estripado, eviscerado”, Arrigucci esgota todos os pormenores deste poemeto. Neste primeiro momento, me dedico a tratar os tópicos “Um achado” e “Uma história que virou notícia”.

  O autor inicia sua minuciosa análise tratando do contraste entre o tamanho diminuto do poema e seu título, que é explicativo e demasiado comprido se comparado ao restante do texto. Além disso, ressalta que, de acordo com o título, é possível presumir que o poema é retirado de algum outro lugar, no caso, de algo simploriamente cotidiano, prosaico e heterogêneo, como o material impresso no jornal. E, com sua forma breve, versos livres e irregulares, sem métrica igualada, de alguma forma parece mesmo imitar a notícia de onde saiu.

      Tal impressão surge à primeira vista, graças a alguns traços da linguagem jornalística que podem ser encontradas neste poemeto: a novidade, a já mencionada brevidade, o tom coloquial e a objetividade na apresentação impessoal e direta dos fatos. Inclusive, a matéria de que trata o poema parece ter sido “simplificada” para virar notícia. Nas palavras do autor, “a morte inesperada de um pobre diabo, logo depois de esbaldar-se, tem, pela natureza do assunto e dos dados escolhidos, o ar da ocorrência policial que tanto se presta ao sensacionalismo barato, comum em certo tipo de imprensa”.  Esse recorte que parece arbitrário, isento de comentários, pode lembrar a falta de correlação entre as notícias, que são tomadas isoladamente, para, literalmente, serem lidas e esquecidas.

      Todavia, Arrigucci vem, por meio de seu artigo, nos provar que não há arbitrariedade nestes versos de Bandeira, nem na diagramação e muito menos na mensagem deixada pela morte de João. O autor ressalta, a esse respeito, que este poemeto é “fruto de uma poda completa” e gera “uma extraordinária intensidade no sentido, que só se expande, com essa máxima contenção. Ele traduz o “Poema tirado de uma notícia de jornal” como um duplo paradoxo: de um lado, temos um achado supostamente casual de uma matéria jornalística, que é impessoal e não poética, em contraposição ao poema que é feito com marcas personalíssimas do estilo e da poética de Bandeira; por outro lado tem-se a essa simplificação da matéria achada, mas que produz uma amplificação do sentido.

      Essas linhas curtíssimas têm grande impacto sobre o leitor, pelo fim abrupto logo após um momento de máxima exaltação, instaurando o conflito e o desconcerto dessa vida em resumo. Bandeira lança o leitor além da simples notícia, haja vista que o poema não é mais notícia, não se esgota na informação sobre a morte singular de um João-ninguém. Este caso transforma-se em uma situação ambígua que permeia um presente intemporal, onde o autor transporta o leitor para uma reflexão a respeito do instante final do “destino dramático e inexplicável de um pobre-diabo”.

      De modo a desconstruir este poema, e compreender, de fato, o que Bandeira coloca nas linhas e entrelinhas dele, Davi Arrigucci faz um apanhado histórico para encaminhar ao leitor ao entendimento desta historieta que virou notícia, passando, obviamente por Manuel Bandeira e outros escritores que viriam a lhe influenciar o amadurecimento de sua obra, como Cendars e Oswald de Andrade.

      O “Poema tirado de uma notícia de jornal” apareceu em Libertinagem, corpus de nosso estudo, na primeira edição, em 1930, momento em que Bandeira claramente aderia ao ideário do Modernismo. Contudo, a história deste poema começa na década de 1920. Naquela época, a prática de ruptura com os moldes parnasianos e simbolistas consistia no choque sobre o público, como um meio de abrir caminho para os novos valores, de modo que entre tantas outras coisas, uma das artimanhas de Bandeira era a de traduzir esta velha linguagem purista para o “moderno” ou para “caçange” (assim o poeta chamou o idioma dos brasileiros. Durante o mês modernista, por exemplo, em 1925, os escritores tiveram espaço aberto para manifestar esta nova estética no jornal carioca “A noite”. E foi neste jornal que o poemeto apareceu pela primeira vez, juntamente com outros textos de Bandeira, cujo conjunto recebera o nome de “Bife à moda da casa” Prato que era de seu costume pedir quando se reunia com seus companheiros no restaurante Reis, no Rio de Janeiro. O autor tivera uma vida bastante boêmia, contudo permeada de simplicidade – tudo isso transparecia em seus versos. E o próprio “Libertinagem” demonstra tal mistura.

      O próprio Manuel Bandeira, numa crônica escrita anos depois, pondera a presença da poesia nas matérias mais simples, como esta, retirada de onde menos se espera, o jornal: “A poesia é o éter em que tudo penetra […]” e o poeta devia estar “atento a essa poesia disfarçada e errante”, que exigia momentos de “apaixonada escuta” para dar com os “raros momentos” em que se pudesse desentranhá-la do mundo. Em outros termos, o escritor assevera que há poesia por toda parte, cabe, no entanto, à argúcia do poeta de retirá-la do mundo e transpô-la no papel, imortalizando-a, retirando-a do espaço e do tempo. Nas palavras de Arrigucci, “Ao meter as mãos na matéria impura do mundo – ganga bruta de onde desentranhar o metal nobre e raro da poesia – o poeta se afastava de fato da esfera elevada onde tradicionalmente se situava o poético; nobre e raro produto do espírito de alguma forma, para ele agora, jaz entranhado no chão do cotidiano” (p. 92) Considerando este trecho, chegamos ao cerne das questões levantadas por Arrigucci: ele, em todo seu artigo, trata deste processo de retirar algo das entranhas, processo que Bandeira realiza em seus poemas, partindo do cotidiano, de todas as coisas.

      O autor pondera ainda que tal atitude de Bandeira (e de outros modernistas) gerou conseqüências para os rumos da poesia brasileira, implicando na linguagem poética, que não mais se restringe ao discurso poético – a linguagem passou a incorporar arranjos incomuns, lugares comuns da língua falada. Muda-se a zona de percepção de valores, a forma de apresentação no que diz respeito ao público e, especialmente, a posição do poeta em face da realidade. Além destas implicações, o autor traz uma que é ainda mais interessante: “implicava algo geral e, ao mesmo tempo, muito particular: uma abertura maior da vida do espírito para a realidade presente de um país largamente desconhecido de si mesmo e para a novidade de fatos palpáveis da existência material de todo dia, tal como afloravam chocantes no espaço modernizado das cidades, ecoando nas páginas do jornal” (p. 93).

      Arrigucci pondera ainda que essa brecha do novo invade as fraturas das antigas convenções, de maneira que os fatos cotidianos penetraram o universo da arte, com um trato artístico renovado, uma nova estética, que já encontra pela frente uma forma de organização dessa matéria na imprensa cotidiana, que o jornal. Assim, este veículo aparece como um campo de exploração da nova percepção da poesia, além de um espaço de mediação para uma nova atitude poética.

No último tópico de seu artigo, Arrigucci analisa minuciosamente a forma e o sentido do “Poema tirado de uma notícia de jornal”. É fundamental salientar o caráter narrativo deste poemeto, aliás, é uma narrativa curta e extremamente condensada de uma vida em seu derradeiro momento. Como pudemos constatar durante a leitura, é contada em terceira pessoa por um narrador é aparentemente neutro, impessoal e distanciado; o que desencadearia o ideal jornalístico de objetividade e isenção. Contudo, o narrador traz marcas em seu discurso que contrapõem esta clareza isenta ao qual a notícia de jornal se propõe: basta ao leitor atentar-se claramente as escolhas lexicais de quem narra.

Outro ponto ressaltado pelo autor do artigo é a falta da voz central do sujeito, expressando seus próprios pensamentos e sentimentos, o que é bastante comum na lírica. O que não ocorre neste poema, o sujeito está, de certa forma, oculto: “suas emoções, seu estado de alma ou mesmo suas concepções ou visões não se revelam à primeira vista”. A história é contada impessoalmente, pelo tratamento da matéria, onde os possíveis vínculos do ocorrido com o sujeito permanecem subjacentes. Além disso, Bandeira, ao invés de fundir a lírica do sujeito com o objeto, transpõe o poema numa distância que é característica da épica, projetando o mundo narrado em primeiro plano, onde, segundo Arrigucci, “se desenrolam acontecimentos marcados por uma alta tensão dramática”. Neste dado momento, é possível perceber que há uma mistura de elementos épicos e dramáticos, enquadrados nessa estrutura lírica – justamente a novidade característica de certos poemas de Cendars que Bandeira, por vezes, observou.

De acordo com Davi Arrigucci, “esse objetivismo lírico, resultante da mistura indefinida e algo arcaizante dos gêneros, assim como a simplificação drástica de uma matéria já em si pobre – o destino de um pobre-diabo de uma favela brasileira –, confere ai poema de Bandeira uma feição primitiva e, ao mesmo tempo, o aproxima de um meio moderno como o jornal.” Dessa forma, o episódio da morte de João Gostoso passa a ser estampado com a elementaridade abstrata do destino universal do indivíduo face à face com a morte.

 “Uma notícia da vida moderna se transforma num mythos trágico, narrado como uma historieta numa estrutura lírica, cuja fonte (a posição do sujeito) permanece oculta” (p. 109)

 

      Essa junção do primitivo e do moderno como um paradoxo é fruto da atitude primitivista que os modernistas assumiram – em parte pelas tendências européias e também pelas manifestações arcaicas e populares, que são fundamentais para a configuração da arte moderna entre as correntes de vanguarda, “representando uma ruptura e poderoso desrecalque de elementos até então reprimidos na Europa. Antonio Candido observou como essa tendência encontrou aqui um chão propício e condições favoráveis para se arraigar e expandir, uma vez que as culturas primitivas faziam parte de nossa realidade cotidiana e muitas das ousadias e transgressões dessa vanguarda européia eram muito mais coerentes com nossa herança cultural. Dessa forma, essa influência propiciou uma reelaboração em profundidade, numa possibilidade de forjar uma expressão própria, ao mesmo tempo local e universal, “pela penetração na particularidade concreta da realidade brasileira.

      O que permite, ainda, a compreensão de alguns aspectos inovadores do tratamento lírico que o poema adota, nessa complexa relação de afastamento e aproximação com o jornal. Essa nova técnica poética abordada por Bandeira, com seu objetivismo lírico, sua forma simplificada e mescla de gêneros; que recusa um passado próximo, mas é, ao mesmo tempo, uma volta a um passado arcaico, desemboca no mythos trágico que se reduz o destino do João-ninguém na concentrada e fatal efusão dionisíaca.

      É bastante interessante esta aproximação que o autor faz do poema moderno de Bandeira com a mitologia, especialmente associando à figura de Dionísio, deus do vinho e da colheita.  Neste poema, a notícia se transforma numa história exemplar em que ressoam modelos arquetípicos. Assim, segundo o autor, “o que se tira do jornal, veículo moderno, onde transparecem contradições que dão uma fisionomia presente do país, é uma narrativa que evoca o mito”.

      De acordo com o autor, a ausência da linguagem expressiva ou emotiva é preenchida por esse discurso narrativo, que é responsável pelo desenrolar da história, de maneira que o microuniverso ficcional tem sua autonomia acentuada. E a ação ganha em dramatismo graças ao efeito da brevidade, que aproxima, secamente, a rápida seqüência de atos do João Gostoso (Bebeu/Cantou/Dançou), em sua aparente expressão da alegria de viver, manifestada num crescendo da expansão efusiva ao abrupto desfecho do último verso. E, a não intervenção do narrador abre espaço para o desenvolvimento compacto da ação dramática, que aparentemente desenrola por si, num avanço ininterrupto rumo ao desfecho, a partir da chegada de João ao bar Vinte de Novembro.

      Na verdade, o autor pontua que a unidade de ação parece, ainda, vir antes, desdobrando os traços da personagem e de seu espaço característico, apresentados na caracterização feita no primeiro verso, tal qual era feito nos primórdios da literatura ocidental. O autor cita o grego Heráclito, com sua máxima “o caráter do homem é seu destino”. Assim, os atos de João Gostoso seguem-se à descrição de seu modo de ser, apresentado de início, compondo-o num bloco único.

      De fato, este primeiro longo verso, com sua continuidade prosaica e seu caráter descritivo, não apenas lembra uma ocorrência policial transformada em notícia, como apresenta, como frisado pelo autor, um ethos do indivíduo, identificando seu nome, o tipo de trabalho que exerce e o local aonde mora. “A informação do meio moderno de comunicação se abre para traços genéricos e abstratizantes de determinação elementar do indivíduo, que logo topará com a catástrofe e o desenlace de seu destino, de algum modo já contido nos elementos da descrição que o caracterizam”.

      Em primeiro lugar, temos a identificação pelo nome, onde o sobrenome é substituído por uma espécie de apelido, e o caráter comum do prenome, estão cheio de implicações: indiciam, antes de qualquer coisa, a condição social do indivíduo pobre, para quem não conta a distinção de família, e o nome próprio corriqueiro é uma maneira de dissolver-se na generalidade do grupo, o grupo dos joões-ninguém. Já o adjetivo “gostoso” distingue o indivíduo por uma forma de consideração pelo grupo, conotando um matiz erótico e popular, de modo meio gaiato, que faz logo imaginar o universo do malandro, “cuja força de atração e poder de sedução têm decerto um fundo sexual importante”. Tal característica prenuncia a inclinação do malandro para diversão e para festas, a que se entrega num espaço igualmente apropriado a seu caráter, o bar.

      Já o subemprego (carregador de feira livre) implica a força física e a baixa remuneração, reforçando o traço da condição humilde do tipo social, além, é claro, ai aspecto físico que o distingue. Outro ponto que pode ser captado pelo subemprego é a sua correlação com a moradia de João, um barracão sem número, no morro da Babilônia, que é uma favela carioca. A falta do número parece ainda mais enfatizada no contraste com o nome do bar “Vinte de Novembro”.

      Aliás, todo o processo de caracterização do poema está marcado por uma ambigüidade contraditória: os traços singularizadores e localistas que determinam o malandro carioca em seu espaço característico são, ao mesmo tempo, fatores de indeterminação genérica e abstratizante do tipo social, o que não deixa espaço para a diversidade individual. Segundo o autor, “ao chegar ao bar e se entregar à diversão, João Gostoso parece estar cumprindo o que estava pré-determinado em seu nome e modo de ser, como um indivíduo que deixa atrás de si toda a diversidade (que é a exaltação vital da festa) para ir de encontro à universalidade de seu destino na morte.”

       É interessante citar que a analogia com a ocorrência policial se liga à verossimilhança do título, fazendo um eco ao jornal, ao mesmo tempo em que cria uma tensão expressiva entre prosa e poesia, cujas características também se acham presentes e saltam à vista. Basicamente, é essa tensão que deriva das contradições que constitui a marca da construção do poema. A atenção do leitor é chamada para algo que parece prosa, mas se afirma como verso e pelo corte, que interrompe a enumeração dos dados, suspendendo a frase sem pontuação final, de modo que as frases se ligam como um bloco único.

Assim, o leitor acompanha o movimento interno do ritmo e da ação, toda a trajetória que João compre implacavelmente até o seu destino final, a morte. O autor faz uma analogia a uma descida inevitável e sem explicação, como a de uma pedra que rola morro abaixo por necessidade física. Agora, a passagem do ritmo lento dos versos iniciais, o primeiro longuíssimo e o segundo ainda longo para os seguintes, curtíssimos, imita na expressão esse movimento, enfatizado até visualmente pela oposição entre a verticalidade rápida dos curtos e da horizontalidade espraiada dos versos longos, no princípio e no fim.

Outro ponto enfatizado pelo autor é que João parte do alto, do morro da Babilônia, para morrer em baixo, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Esses espaços, tensos, têm sua designação motivada (oposta a arbitrária) dentro do poema, em virtude das relações laterais entre essas palavras dentro do mesmo campo de forças do contexto comum. A descida de João tem uma lógica férrea, pois parece obedecer cegamente ao desnível do espaço, submetendo-se a uma causalidade, atuando como uma fatalidade material e bruta. E, ao mesmo tempo, o desnível espacial é um desnível social, determinado por condições históricas específicas do atraso social brasileiro. João desce, implacavelmente, para a destruição, ao entregar-se a si mesmo, ao ir ao encontro do que ele realmente é, encarnando o arquétipo de malandro que representa. Assim, sua história adquire a proporção de mythos trágico.

 

 “O destino humilde de um tipo popular de uma grande cidade, onde se chocam as contradições do desenvolvimento moderno e do atraso, não apenas evoca o esquema primitivo e arquetípico em sua trajetória exemplar rumo à catástrofe, mas se alça ao sublime da elevação trágica, ao revelar, pela seriedade do tratamento poético, a substância altamente problemática de sua condição humana.” (p. 113)

 

      João se acha numa situação de erro trágico, puramente pelas circunstâncias que condicionam seu caráter. E, sendo um simples João-ninguém (não sendo bom ou mau), com a simpatia e a alegria de viver expressas no nome, basta que siga naturalmente seu modo de ser para que sobrevenha o descomedimento, com o seu terrível desfecho. Empurrado para baixo, sua vontade de viver o eleva por um instante, antes de destruí-lo.

      “A contradição entre o alto e o baixo, com tudo o que ela implica, no plano espacial, social e da representação literária da realidade, arma, assim, um poderoso campo de forças em choque, complexo e rico de sentido, cuja compreensão em profundidade depende da penetração nos detalhes concretos que nele se articulam significativamente.” Por exemplo, Babilônia designa, primeiramente, o morro carioca, que se opõe à Lagoa Rodrigo de Freitas. Já a lagoa, é um local de beleza e riqueza no Rio de Janeiro. E esses dois locais se relacionam como dois aspectos opostos da realidade física, material e social: o alto e o baixo, a pobreza e a riqueza. E estão também nas duas pontas da ação: começo e fim, vida e morte. Além das implicações do plano simbólico, em que se juntam as duas dimensões de um destino humano ao mesmo tempo singular e universal, histórico e arquetípico, moderno e primitivo; e os dois níveis da representação literária: o humilde e o sublime. E o que permite tal articulação é o princípio formal da ironia, que nessa dialética, é capaz de incluir e ampliar o sentido ambíguo que propicia.

      Voltando ao contraste entre a Lagoa e o morro da Babilônia, temos que esta última é, além de espaço da miséria anônima, da indeterminação, da confusão e do caos (significados contidos no termo, em seu emprego como substantivo comum), em que pesa ainda o eco degradado da Babel primordial, da Babilônia que era a porta dos Deuses, o liame entre o céu e a terra, e era também “as águas do Caos anterior à criação”. Assim, a duplicidade desse termo vibra com toda a intensidade e sugestão imaginativa no âmbito do poema. “A imagem da confusão e do caos que projeta o morro da Babilônia sugere algo da dissolução em que mergulhará João Gostoso, que é literalmente tragado pelo caos das águas da Lagoa, lugar de riqueza, mas que é localizado embaixo. (Comparar a estrutura morro e lago nos dias atuais) De alguma forma, o fim está contido na origem, no meio da trajetória catastrófica, o momento de festa e de exaltação dos sentidos é o instante dionisíaco, ao mesmo tempo baixo e alto, onde a vida se dissolve, preparando o fim, na liquidação do indivíduo. É o mergulho do ser na indiferenciação caótica do mundo natural.

      O movimento da ação tem início, como se observou, no segundo verso, na chegada de João ao bar, que inicia-se com a expressão “Uma noite…” como a similar “Era uma vez”, que introduz um tempo indeterminado e vago, certamente incompatível com a exatidão que se requer de uma notícia de jornal. Outro ponto é a linguagem, que demonstra o aproveitamento de detalhes da fala cotidiana e popular (regência de chegar e repetição de ele).

      É ainda interessante citar que, com sua simetria, esses três versos curtos introduzem no poema um momento de marcada repetição, que representam atos análogos, como um movimento ritualístico de atos repetidos e exemplares, encarnando os gestos efusivos da alegria e da exultação vital, constituindo a expressão ditirâmbica de um crescente entusiasmo. O que desencadeia um momento de ascensão para o êxtase, em contradição com o movimento de descida do pobre-diabo, um movimento do ser humilde para o sublime – instante de alumbramento. Essa seqüência de bebida, canto e dança, em ritmo tenso e frenético remete à imagem primitiva do séquito orgiástico em louvor a Dionísio. O mais impressionante é que a figura desse deus também é associada, em sua cultura, como “Aquele que nasceu no lago”, e é ligado às águas pela vida e pela morte. Além disso, a figura desse deus é associada aos ditirambos e à tragédia. “O mito trágico não é senão uma simbolização da sabedoria dionisíaca […]”. E na estrutura do trágico se exprime uma grande vontade de viver, o trágico brota de uma força exultante; como uma negação da individuação e o retorno do ser ao indeterminado. E este poemeto de Bandeira suscita esse fundo arcaico e poderoso com suas contradições fundamentais, que se atualizam na historieta de um marginal de uma cidade moderna, mas que a colocam numa dimensão do universal e de uma vasta e complexa tradição.

 “Ao nos revelar este rosto da miséria, o poeta, à primeira vista ausente, se solidariza no mais fundo com ela, confidenciando-nos contraditoriamente, pela ironia aparentemente isentam a emoção que o irmana à substância trágica onde a própria face do homem se espelha, no processo mesmo de sua dissolução, em seu destino enigmático pela morte. Identificado com esse destino, ele o transforma em objeto de uma emoção pessoal, em achado lírico, e o passa ao leitor num concentrado enigma, como uma forma da experiência. Com isto, desentranha não apenas a imagem de um país ou a dimensão trágica universal de um destino comum, resgatando-os das páginas fugazes de um jornal para a perenidade da arte, mas também a poesia sublime que se oculta numa vida humilde e se mostra na forma simples das palavras de todo dia, cuja fonte pode se achar escondida na imprensa cotidiana. Poucas vezes a poesia brasileira soube descer assim fundo para subir tão alto, encerrando, com naturalidade, um todo tão complexo em secreta e sóbria simplicidade.” 

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Referências Bibliográficas

ARRIGUCCI JR., David. Humildade, paixão e morte: a poesia de Manuel Bandeira. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

Minha ilusão epopéica

Mar e lua agora contracenam lindamente

Algo há para sentir

Ludibriar-se nesta noite apaixonante.

Por tão pouco não passam teus olhos por mim.

Observo-te com receio de ser vista, descoberta.

Simplesmente, já não tenho com o que sonhar.

Sei que realizo-me em tua bela imagem

Olhando para o mar.

Cartas e mais cartas te deixei

Recebê-las é que nunca lhe permiti.

Entre tantos devaneios,

Resta-me uma boa lembrança daquele tempo entre marulhos.

Noutros tempos, poderia eu até confessar,

Agora, entanto, deixo-me por revelar.

Intrigantes rimas que tenho feito,

Negam dores bem mais fortes,

Grandiosas, cravadas em mim.

Entenda-me,

Não adianta por nada mais lhe revelar.

Um dia talvez, quando tudo isto não me tiver mais importância.

Instante por instante , posso sentir-te, ao menos uma vez.

Deste tempo não lhe deixarei partir.

Antes perder-me em minhas idéias

Do que abandoná-lo sem pena.

Entenda-me.

Deixo-me levar por entre pensamentos,

Estes, aqueles, do tempo do vento.

Tanto vento em teus cabelos,

Estrelas iluminando-o

Recebendo em teus olhos um brilho descomunal.

Trata-me com amor,

Entenda, não lhe posso revelar.

Dou-lhe minhas mãos e peço para que as segure,

Entre tantos medos que tive, espero que assim me cure.

Imediatamente sinto-me livre

Xeque-mate em todos os meus pesadelos

Agora meus sonhos estão protegidos.

Desde que não me deixe e me guie

Ontem eu te olhava, hoje, és tu que me guarda.

E não me deixe acordar.

A fantasia não poderia ter fim…

Gritar a plenos pulmões o tamanho do amor que sinto

Orgulhosamente e sem vergonhas…

Rindo desesperadamente

Antes tarde que nunca, posso dizer que estou feliz.

Ritmo novo, é este que danço

Entre passos, enlaço e me sinto leve

Ziguezagueando sem fim.

Alta música marítima, são as ondas

Rindo de nós.

Permita-me sonhar apenas mais alguns segundos

Ruas acima, vêm dançando

Aves noturnas que acompanham nossos passos.

Víamos tudo aquilo sem saber o que notar

Outrora nossa dança de mais perfeito par

Contracena com a natureza que magnificamente clama:

Ê, este amor é lindo de se ver!


Viagens entre nosso mundo,

Onde só nós poderíamos estar…

Lentamente a dança pára…

Temos algo novo a sentir.

A doce chuva chega,

Revela nossa alegria juntando-se a nós.

Pingos fracos, pingos fortes

Roucas vozes, loucas melodias que se formavam

Ante nossos olhos, as coisas mais belas se misturavam.

Meus e teus olhos semi-cerrados,

Indo em direção ao beijo mais esperado.

Minutos eram parados, agora o tempo é irreal. . .

Fim de noite ia chegando…

O dia ia aparecendo

Ia agora o sol contemplar nosso momento.

Ama-te, ama-me , amamo-nos

Logo tudo irá passar.

Gira o mundo e mal percebo

Ontem já é hoje, e ainda é cedo

Inconstantes raios de sol chegam a nossos olhos

Na troca de olhares soubemos.

Era recíproco,

Sonho perfeito e maravilhoso.

Pouco a se dizer

Era raro lhe faltar palavra

Rir-se-ia da situação.

Ao muito que se via

Dizia, sentia, era pura emoção.

Ontem era história, agora é existente.

Meu amor não vá embora

Antes que diga o que deveras sente.

Sacia-me do teu amor, não mais que de repente.

Amigo que sempre esperei

Ontem o amor que quase desperdicei.

Me digas, desejo ouvir tua voz.

Encanta-me,

Surpreenda-me…

Meu coração pede por ti.

Olhos de minha alma veneram-te.

Tuas marcas na areia me levam

Encontro-te estático, na mesma cena inicial.

Mergulhando no mar apenas com os olhos

Pedindo à água para te molhar, as

Ondas atendem teu pedido especial.

Tira-me de meu sossego,

Alcança-me e leva-me.

Outro de teus anseios.

Peço-lhe que fique ao meu lado,

Raios de luz tão lindos e transpassados

Entre nós não há mais um doloroso passado.

Vivamos.

Intensamente.

Sinto que agora é diferente.

Imenso mar é nossa testemunha

Vinculados agora mais que nunca.

Entre nossos segredos,

Levemos o que há de melhor. ..

Imagem que levo comigo,

Sempre pelo amor de um amigo.

São boas lembranças,

Ontem era nosso tempo de crianças.

Note que crescemos, tanta coisa mudou.

Amor não existe mais.

Outras marés vão pelo mar.

É ali que não mais lhe vejo a paisagem observar.

Aquele espaço vazio pertence a você

Muitos tentarão ocupar.

Outros dirão que não valerá esperar.

Restos de paixão é o que há de sobrar.

Exclamo e persisto, tu hás de mudar.

Único temor que tive virou realidade

Meus sonhos à beira-mar são minha ilusão.

Algo que deixo, mas por ora remexo, na falta do que falar.

Com mil e uma esperanças,

Ontem, nosso tempo de crianças, me deixou a pensar.

Naquele tempo lindo,

Fiz-te olhar para o mar.

Ilusória imagem que mantenho, pois é dela que alimento

Sentimento chamado amor que não tem mais lar.

Simples palavras de nada adiantam ou convêm.

Assim viramos histórias na vida de

Outro alguém.

Deixe-me aqui a contemplar

Esta imagem olhando o mar.

Quero repeti-la em minha mente

Única espera de quem sente

Esta ânsia por voltar.

Minutos que não vão mais parar.

Muitos sinais perdidos;

O meu sol não brilha ofuscando minha visão;

Rente a ela, apenas um espaço vazio, um vácuo, uma dispersão.

Refrataria a luz um dia, formando um belo arco-íris se teu olho fosse meu prisma.

E aqui tudo é opaco, meu brilho já se foi.

Destinos tão distantes

Entre pessoas tão amantes… o que aconteceu?!

Só pude livrar-me de minhas amarras

Ao tempo que te sentias tão livre e bem.

Um pássaro louco, pronto pra voar.

Doído canto, daquele que ficou preso à gaiola.

A sua realidade não lhe pôde acordar.

Dito isto entre nós,

Espero por aqueles tempos.

Sim, sei que lembras…

Do tempo do vento, do tempo do mar.

Entenda-me, não posso mais esperar.

Um de nós haveria de viver

Misturado àquela maré;

Tanto tempo,

Eu entendo.

Meus devaneios vão cada vez mais longe

Preciso mesmo aterrissar

Onde seja seguro, no meu porto, no meu mar.

Quente brisa que me toca,

Última vez que fecho meus olhos para lembrar.

Entenda, eu preciso recordar.

Fina chuva que cai

O sol ainda não saiu, em

Instantes vem a noite, aquela que me consumiu.

E entre sonhos caio e adormeço;

Naquela praia que eu bem conheço

Antes de vê-lo, senti-lo, no meu sonho.

Olhando para o mar…

Você estava lá.

Ontem, nosso tempo de amores

Lentamente desaparece com as dores

Tantas lembranças que ainda despertam

Aquela dispersão que ainda espero,

Rindo de nós dois,

Às vezes eu paro pra pensar…

Prá você

 

Ah… há quanto tempo não me expresso em verso
Me disperso, só de olhar…
É o pensamento que vai e volta no tempo,
enquanto brinco de imaginar que quem me inspira é a solidão.

Vem então a idéia,
e me pergunto – Por que não?
São as lembrança mais nítidas…
Justamente aquelas que não vivi.

Prá você, desenhei as melhores aquarelas,
Usei meu tom mais bonito,
Reconheci meu sorriso no espelho…

Com você, os dias foram mais nublados,
As noites, me acordavam de súbito.
Em você, os beijos não foram reais…
A imaginação me levava de volta à beira do cais.

Te guardei em um canto sombreado,
E deixei levar consigo as grandes verdades de meu ser.
Passei a não ser, a emudecer, a esquecer…
Agora, tudo desperta.