Reificação dos gêmeos machadianos a partir do regime político brasileiro
Tendo por hipótese a reificação dos gêmeos machadianos a partir do regime político brasileiro, faz-se necessária a abordagem acerca da presença da História em Esaú e Jacó. Sabendo-se que essa obra fora publicada no ano de 1904, o distanciamento temporal é mínimo entre os acontecimentos históricos e aqueles apresentados no livro. Inevitável também é deslumbrar-se com o espaço reservado por Machado de Assis para marcar essa transição política. Levando-se em conta que neste dado momento da vida, o autor não lança críticas tão ácidas como em Dom Casmurro ou Memórias Póstumas, por exemplo, Esaú e Jacó torna-se uma espécie de romance panorâmico – onde Machado de Assis mostra a sociedade brasileira como ela é, sem atacá-la de fato. E, de maneira a compreender melhor a análise proposta, apresenta-se aqui um breve retrato histórico brasileiro, segundo algumas das considerações feitas por João Pacheco.
Compreende-se que o Brasil enfrentara uma série de mudanças a partir do ano de 1850, quando da abolição do tráfico negreiro. Além disso, ocorre a mudança de pólo econômico para o sul do país com a cultura do café e os avanços tecnológicos, tais qual a construção de ferrovias por todo o país e a chegada do telégrafo. Contudo, em 1864 vem a guerra do Paraguai e desestruturação da economia, graças aos gastos com equipamentos bélicos, levando a uma repercussão no comportamento social e gerando novas necessidades de mercado. Naturalmente, estas transformações atingiram o campo político. E, insatisfeitos, alguns desses políticos renunciam ao partido conservador – de ideais monárquicos – para filiarem-se ao partido liberal, e juntos formarem a nova agremiação: o partido progressista, cujas reivindicações incluíam a federação; a temporariedade do senado, já que esse era um cargo vitalício; e a extinção da escravatura. Todas essas idéias minaram de forma a conduzir o surgimento do partido republicano, com seu manifesto lançado no dia 3 de dezembro de 1870. Com isso, temos a campanha abolicionista, que institui a liberdade do nascituro de escravo em 1871, que, no entanto é bastante falha – visto que essas crianças tinham o mesmo fim de escravo que seus precursores. É este o ano que Machado de Assis escolhe para a apresentação dos gêmeos Pedro e Paulo, que também é o ano do nascimento de Flora, a amada desses irmãos.
Já em 1870 começa a entrada de imigrantes no país, e com isso a mão-de-obra assalariada, causando outro desajuste na economia que geraria um novo estilo de vida. Temos em 1881 as eleições diretas, e quatro anos depois, a lei sexagenária. Com a força dessas transformações, aumenta a cisão entre coroa e nação. E, um ano após o surgimento da Lei Áurea, estoura a república, e passamos – como veremos na obra – do que trata também a tese de mestrado de Luiz Fernando Godois Brito, que chama-se “Da rua do Ouvidor ao 15 de novembro – cotidiano e representações da cena carioca em Esaú e Jacó, de Machado de Assis”. E é inevitável advertir que a República não cessa o rebuliço na política. Pelo contrário, muitos se manifestaram descontentes com o regime, que não resolvera os problemas da nação e acabara assim por não ser a república com que tinham sonhado; como faz exatamente o gêmeo Paulo: “A oposição de Paulo não era ao princípio, mas à execução. Não é esta a republica dos meus sonhos, dizia ele; e dispunha-se a reformá-la em três tempos, com a fina flor das instituições humanas, não presentes nem passadas, mas futuras.” (ASSIS, p. 197) Alguns esperam, como Pedro, a restauração monárquica. Com isso dito, é possível agora aprofundar-se nas linhas de Esaú e Jacó, de modo a confirmar a hipótese inicial.
Dentro da obra machadiana, o romance aborda, sobretudo, a política brasileira da época – especificamente entre 1871 e 1894 – período que marca a crise e a queda do império e surgimento da república, mostrando a impossibilidade de colocar o Brasil em benefício de seu próprio povo. O enredo do romance centra-se na história dos gêmeos Pedro e Paulo, simetricamente opostos, e ao mesmo tempo tão idênticos. Enquanto este último tem aspirações pela medicina, o primeiro tem pelo direito. Mas são as questões políticas o centro de seu conflito, já que Pedro simpatiza pela monarquia – veja seu nome idêntico aos líderes monárquicos brasileiros – e seu irmão Paulo é mantenedor da república. A crítica machadiana ao sistema político brasileiro começa com a alusão à Bíblia quando Rebeca, ao sentir que os filhos Esaú e Jacó brigam em seu útero recorre a Deus perguntando-lhe o motivo, que em resposta lhe diz a haver duas nações em seu ventre. Aqui, as duas nações seriam o Brasil, que a partir da crise política de 1871 divide-se em fundamentalmente em monarquistas e republicanos. O nascimento dos gêmeos é, por assim dizer, uma alusão pertinente, visto que o próprio nome da mãe – Natividade – já carrega essa idéia, a indicar algo novo que é esperado. O que, entretanto não acontece. Daí a hipótese de que esses gêmeos, além de representarem a personificação dos dois sistemas políticos, também pintarem o quadro da unicidade. Machado de Assis expõe sua indiferença pelos sistemas igualando-os nas figuras de Pedro e Paulo, portanto. Idéia esta que é reforçada ao longo de toda a narrativa. Eis um trecho: “Talvez perdessem estando juntos, porque a semelhança diminuía em cada um deles a feição pessoal. (ASSIS, p.71). Em termos diversos, quando separados poder-se-ia ter a impressão de que não eram assim tão semelhantes, mas quando comparados, via-se sua condição de eterna eqüidade.
Dá-se o início da narrativa, como já dito, no ano de 1871, quando da visita de Natividade e Perpétua à cabocla que lhes contaria a respeito do destino dos gêmeos Pedro e Paulo. O capítulo, que é intitulado “Coisas Futuras” carrega bastante da intencionalidade de Machado ao retratar o cenário da política brasileira através dessas duas figuras tão gêmeas, e são exatamente coisas futuras e um grande destino que a cabocla Bárbara lhes diz estar reservado. Mas também indaga a respeito de algo que preocupa Natividade: “E não foi sem grande espanto que lhes ouviu perguntar se os meninos tinham brigado antes de nascer.” (ASSIS, p. 16). Comprova-se por este trecho a situação de um país dividido, como já mencionado outrora. Todavia, mesmo com tal indagação, a mãe tranqüiliza-se pela sonoridade das coisas futuras, o que reflete bem o impasse vivido pela sociedade brasileira do pós 1871. O tremor político foi de fato significativo e ninguém sabe mais o que acontecerá no futuro. O romance retrata o pessimismo e desorientação permanente, conseqüentes do abalo do sistema escravocrata e do surgimento da nova classe, voltada para o mercado exterior. Nos trechos seguintes, tem-se mais uma vez a idéia do porvir, da esperança. “Tornava a lembrar-se que, de fato, a gestação não fora sossegada; mas só lhe ficava a sorte da glória e da grandeza. A briga lá ia, se a houve, o futuro sim, esse é que era o principal ou tudo.” (ASSIS, p.21) Espera-se o mesmo da política, já que pouco importaria que existissem conflitos passados, contanto que o futuro fosse repleto de coisas magníficas. “Em verdade, qualquer outra viveria a tremer pela sorte aos filhos, uma vez que houvera a rixa anterior e interior. Agora as lutas eram mais freqüentes, as mãos cada vez mais aptas, e tudo fazia recear que eles acabassem estripando-se um ao outro…mas aqui surgia a idéia da grandeza e da prosperidade, – coisas futuras – esta esperança era como um lenço que enxugasse os olhos da bela senhora.”(ASSIS, p.48). Mais adiante na narrativa, há um trecho que é capital para o entendimento desta análise, trata-se de mais uma das metáforas de Machado para sinalizar o fim do império e a chegada da república: “Foi a última palavra da necrologia; paz aos mortos. Dali em diante, vingou a soberania da criança que alvorecia. [...] e por fim a esperança que é a meninice do mundo.”(ASSIS, p.27-28) Metáfora que pode ser entendida como a morte do regime que é registrada, e a ascensão de um outro. Quanto à esperança como retrato da meninice, há aqui a representação da ingenuidade da sociedade brasileira em ainda crer nas mudanças.
É ainda no escolher do nome que podemos perceber a imagem dos irmãos como plena equivalência: “Um dia, estando Perpétua à missa, rezou o credo, advertiu as palavras: “[...] os santos apóstolos S. Pedro e s. Paulo”, e mal pôde acabar a oração. Tinha descoberto os nomes; eram simples e gêmeos.” (ASSIS, p.29) Trazendo para a analogia dos regimes políticos, muda-se o nome, mas não o conteúdo. Mesmo na infância, Machado de Assis já os coloca como dois seres incompletos que convergem verdadeiramente a um único: “Aos sete anos, eram duas obras primas, ou antes, uma só em dois volumes, como quiseres. (ASSIS, p. 45) Fato que o Conselheiro Aires, já quase finda a narrativa, reitera a respeito de quem chegaria primeiro ao poder: “Como nas missas fúnebres, só se troca o nome do encomendado – Petrus, Paulus…” (ASSIS, p.198). E além de iguais na aparência e na idéia que representam, são iguais em competitividade – que é outro ponto forte salientado por Machado de Assis na personalidade dessas personagens. Competem pela ambição de nascer primeiro, de amamentar mais e melhor, e, essencialmente, de alcançar antes o sucesso. Concorrem pelo amor da mãe e de Flora também.
E esta última personagem é essencial para a concretização de toda essa análise, visto que Flora está em nome da resolução política. Cabe a ela escolher pelo amor de um dos gêmeos; ou seja, metaforicamente, é sua função definir se o país continuará monarquista ou republicano. A dúvida, a queixa, a tentativa de conciliar os opostos, tudo isso alimentou seu espírito ao estar em companhia dos gêmeos, que eram ambos tratados com a mesma consideração. Flora defendia-os em igual intensidade, como que os equiparando. No entanto, definha e morre antes de tomar qualquer decisão e os gêmeos ficam ainda mais distantes um do outro. Tais oposições políticas vistas no geral são analogias daquelas que mais saltam aos olhos no Brasil, ordem e desordem, progresso e conservadorismo. Dessa forma, qualquer aspecto positivo está condicionado a um negativo e vice-versa e os efeitos dessa relação resultam no nada, ou melhor, morrem como Flora. E, tal objeto de desejo que era, seria natural que, uma vez que representava também a unificação das ambições dos gêmeos, com sua morte deveria vir a redenção. Contudo, há uma espécie de morte da dúvida, uma vez que se estabelece o governo apesar da não-escolha.
Retomando a infância dos gêmeos, há um episódio que retrata já a inclinação política dos meninos, no momento em que alguém lhes pergunta sobre a data de seu aniversário, retratado no trecho seguinte do capítulo XXIII: “Paulo respondeu: – Nasci no aniversário do dia em que Pedro I caiu do trono. E Pedro: – Nasci no aniversário do dia em que sua Majestade subiu ao trono.” Mais adiante, já sonham em ocupar cargos em seu regime político ideal: “Paulo viu-se à testa de uma república, em que o antigo e moderno, o futuro e o passado se mesclassem, uma Roma nova, uma Convenção Nacional, a República Francesa e os Estados Unidos da América.[...] Pedro, à sua parte, construía a meio caminho como um palácio para a representação nacional, outro para o imperador, e via-se a si mesmo ministro e presidente do conselho.” (ASSIS, p. 73) E quando da abolição dos escravos, Paulo já atina discursos políticos, aos quais apenas dá voz, como coloca Machado: “A abolição é a aurora da liberdade; esperamos o sol. Emancipando o preto, resta emancipar o branco” (ASSIS, p.47) Mas, Natividade – que é aqui figura conservadora a princípio, e logo saudosista – não se dá conta que “[...]a frase do discurso não era propriamente do filho; não era de ninguém. Alguém a proferiu um dia, em discurso ou conversa, em gazeta ou em viagem de terra ou de mar. Outrem a repetiu, até que muita gente a fez sua. Era nova, era enérgica, era expressiva, ficou sendo patrimônio comum.” (ASSIS, idem.). Essa efervescência pode ser explicada com o trecho que segue, de acordo com o historiador Leôncio Basbaun: “A república era mais um sentimento estético que propriamente prático ou político. Era belo ser republicano, como era belo ser abolicionista” (BASBAUN apud. BRITO, p. 75). O que leva ao cerne da questão, visto que Paulo representa a verdadeira utopia, sempre em busca do inalcançável e insatisfeito com o presente; em suma, a espera de um futuro que jamais chegará.
Isso é dito simplesmente porque, mesmo com a república estabelecida, e após sua árdua luta pelos ideais, e aqui, retomamos a citação inicial, Paulo sente-se desgostoso do regime e pensa que deve haver novas transformações. E num ambiente que até mesmo as personagens reduziam os gêmeos aos regimes políticos, era natural que tivessem que apaziguar os ânimos mantendo-se sempre “em cima do muro”. O conselheiro Aires – que além de grande observador dessa narrativa, é também voz da razão – conclui, portanto: “A razão parece-me ser que o espírito de inquietação reside em Paulo, e o de conservação em Pedro. Um já se contenta do que está, outro acha que é pouco e pouquíssimo, e quisera ir ao ponto que não foram homens. Em suma, não lhes importam formas de governo contanto que a sociedade fique firme ou se atire para diante.” (ASSIS, p. 198) São, de fato, o próprio impulso, o próprio regime – com os mesmos floreios e discursos: “[...]as duas vozes confundiam-se, de tão iguais que eram, e acabaram sendo uma só. Afinal, a imaginação Fez dos dois moços uma pessoa única.” (ASSIS, p. 147)
Por fim, é necessário retratar um episódio que pode ser compreendido também como metáfora a troca de regimes, de maneira até mais aclarada, que é o da troca de tabuletas na confeitaria de Custódio. A ele são reservados três capítulos, propriamente, além da menção em outros. No episódio da tabuleta do Custódio, a visão do romancista traduz perfeitamente a perplexidade, um sentimento que a todos interpelava naquela época. Remetendo a idéias como trocar de fachada ou mexer em alguma coisa para mudar coisa alguma. Custódio é confeiteiro e precisa trocar a tabuleta de seu comércio, que já está velha. E “Confeitaria do Império” não condiz mais com a época política do seu país. Conselheiro Aires faz certas sugestões, tal qual “Confeitaria da República” e também “Confeitaria do Governo”. No capítulo “Tabuleta Velha”, percebe-se claramente que este nome substitui “monarquia” no trecho que segue: “Aires: – Pois reforme tudo. Pintura nova em madeira velha não vale nada. Agora verá que dura pelo resto da vida. Custódio: – A outra também durava, bastava avivar as letras.” (ASSIS, p. 97) E Machado continua: “Quaisquer que fossem as cores, eram tintas novas, tábuas novas, uma reforma que ele , mais por economia que por afeição, não quisera fazer; mas a afeição valia muito. Agora que ia trocar de tabuleta sentia perder algo do corpo.” (ASSIS, idem.) Mas Custodio faz advertência a ambas por compreender que poderia prejudicar-se pela não-aceitação do nome pelas oposições políticas. Resolve-se por tanto, por “Confeitaria do Custódio”. Contudo, tabuleta velha ou nova, o fim permanece o mesmo: o confeiteiro continuará enfeitando e fazendo as coisas parecerem o que elas não são. As duas nações do ventre não são apenas império e república, mas também um Brasil do progresso e do conservadorismo, da sofisticação e da miséria. Como rótulos de um mesmo vinho, os regimes alteram-se meramente na nomenclatura, assim como os gêmeos de Machado: “Aires quis aquietar-lhe o coração. Nada se mudaria, o regime , sim era possível, mas também se muda de roupa sem trocar de pele. No sábado, ou quando muito na segunda-feira, tudo voltaria ao que era na véspera, menos a constituição.” (ASSIS, p. 125)
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Esaú e Jacó. São Paulo: Martin Claret, 2005. 206 p.
BRITO, Luiz Fernando Godois. Da rua do Ouvidor ao 15 de novembro: cotidiano e representações da cena carioca em Esaú e Jacó, de Machado de Assis (finais do Império e primórdios da República). 1998. 102 f. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade de Brasília, Brasília, 1998.
PACHECO, João. In Realismo: 1870-1900(o). Capítulo I. 4. ed. São Paulo: Cultrix, 1971. pp. 7-11.
RYAN, Marco Aurélio. In A OBRA DE MACHADO DE ASISS. Machado de Assis: um retrato materialista do Brasil. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, 2006. Ensaios premiados no 1º Concurso Internacional Machado de Assis.

