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fotografia amarelada

agosto 24, 2011

Não é preciso me agarrar a nenhuma fotografia amarelada para saber que não reconheceria a garotinha pequena e tímida na imagem que hoje se forma no espelho. Aquelas minhas madeixas escuras e lisas, de menina potira, pouco se parecem com os fios rebeldes que moldam o meu rosto fatigado, que mal consegue formar um sorriso ameno. Nem mesmo meus olhos têm o mesmo brilho inocente e piegas de antes, de quem acredita nas coisas simples…

Ah… certamente aquela jovenzinha tagarela não se imaginaria pintada nesse cenário escurecido, emudecida, engolindo o pranto,  tentando entender uma infinidade de porquês não respondidos… Certamente, ela também se sentiria decepcionada de ver que o mundo real não se parece nem um pouco com o que imaginava.  O mundo dos adultos é cor-de-rosa, pensava… A liberdade deve ser deliciosa… Enfiada entre os livros, ela sempre pensou que o amor era algo maravilhoso e fácil, que o dinheiro lhe levaria aonde desejasse, que os amigos de infância praticamente morariam com ela, que a faculdade lhe traria empregos incríveis, e, sobretudo, que o coração seria mais fácil de se entender.

Também não se sentiria nem um pouco satisfeita em saber que, quando crescesse, teria sentimentos ruins… que sentiria inveja das pessoas bonitas, pois a transformação de princesa que ela achou que teria, não aconteceu… que sentiria ódio de pessoas ruins, e às vezes de pessoas que nem se deu ao trabalho de conhecer melhor… que sentiria desejo por pessoas que não deveria, ainda mais sendo seu coração de um homem que ama… que se calaria para coisas que geralmente não faria… que brigaria quase todos os dias com a própria mãe, que já não suporta viver com ela, colocando-a para fora de casa… que não seria honesta em momentos talvez cruciais… que carregaria tanto rancor dentro do coração… que mentiria… que deixaria coisas importantes de lado…

Sem dúvidas ela também se entristeceria em saber que seu coração carrega um vazio imenso… das pessoas que perdeu, das oportunidades que não aproveitou, das palavras fortes que não deveria ter pronunciado, do silêncio que não deveria ter acontecido… das mágoas que alimentou… dos medos que fora incapaz de enfrentar… Ah, se ela soubesse que, quando crescida, ia se imaginar tão sábia e correta, e se descobriria tão falha e ingênua…

Se ela soubesse como é confuso esse mundo que chamam de real… Onde não se sabe se existe mesmo certo e errado… Onde ela não é vista por ninguém… Onde seu sofrimento é compartilhado apenas numa fria tela de computador, uma coisa que ela nem saberia o que é quando criança… Se ela compreendesse que nada daquilo que sonhara aconteceria, teria desperdiçado seus sonhos, noites e lágrimas?  Se soubesse o que aconteceria a cada decisão sua…Ah… se esse aperto no coração pudesse desaparecer…

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